Riqueza Familiar no Mundo

Nos últimos dez anos, o Credit Suisse Research Institut (Suíça) tem elaborado anualmente seu Global Report sobre o assunto acima, que nesse período vem ganhando credibilidade universal. É uma ferramenta que permite acompanhar a riqueza acumulada por pessoas em diferentes países e, consequentemente, permite compreender o estado da desigualdade econômica global. Como já tratamos no livro “É possível construir uma sociedade mais justa”, o assunto é muito importante, porque uma maior qualidade de vida da sociedade está intimamente ligada a um nível de desigualdade social menor.

Comentamos aqui os principais aspectos divulgados na versão 2019 do Global Report, que se encontra disponível na internet, para quem quiser maiores detalhes.

Durante o período de recuperação da crise de 2008 até hoje, o país onde de forma constante o número de milionários mais vem crescendo anualmente é USA. Os americanos representam 40% dos milionários que existem no planeta. Além disso, entre os 1% mais ricos, eles também alcançam 40% desse total. Logo vem a China, que apesar de ter começado o século bem mais atrás, sobe nesse ranking com velocidade absurda e nessas duas décadas ultrapassou Europa e o Japão, e se encontra em segundo lugar no número de milionários. 

Na verdade, vai além disso, entre os 10% de pessoas que mais riqueza tem no mundo, em meados de 2019, a China ultrapassou os USA e se encontra em primeiro lugar

É evidente que o regime chinês é bastante singular e não é mais possível rotulá-lo de comunista. Ele age utilizando uma mistura de ferramentas, como autoritarismo, regras de mercado parcialmente controladas e políticas sociais importantes. Tal mistura de princípios, parece não ter ainda ter sido implementada de forma tão rígida e com  sucesso por nenhum outro país.

O relatório informa que existem no planeta 46,8 milhões de pessoas que possuem riqueza estimada em mais de 1 milhão de dólares. Em meados de 2019, 10% da população global mantinha 82% da riqueza global deixando para os outros 90% apenas compartilhar os restantes 18%. E 1% dos mais ricos acumulam 45% da riqueza total. Esta é a figura que caracteriza a terrível desigualdade econômica no mundo.

Isso significa que, enquanto os 10% mais ricos possuem renda e dinheiro acumulado, que lhes permite realizar aplicações financeiras, com rendimentos médios de 5% ao ano (nos países desenvolvidos), os outros 90% gastam sua renda praticamente na sua sobrevivência, considerando que no melhor dos casos alcançam algum crescimento salarial, que não irá ultrapassar o crescimento do PIB, no máximo histórico de 2% durante longos períodos. Essa (ou pior) é a situação então da maior parte da população dos países de nossa região. Esse raciocínio pode se transportar a qualquer país ajustando os números, e permite compreender porque a desigualdade no mundo somente cresce. Enquanto 10% da população vê sua riqueza aumentar os restantes 90% assistem. 

Considerando que mais de 1 bilhão de pessoas passam fome no planeta, aqueles que acham que o sistema funciona, deveriam considerar seriamente a opção de  passar por exames mentais. 

O estudo mostra que, após a crise de 2008, a recuperação financeira e o crescimento alcançado, até meados de 2019, aumentou a desigualdade da distribuição das riquezas no mundo.  

O relatório analisa com bastante detalhe o comportamento da riqueza em média por pessoa adulta. Isso faz sentido em países menos desiguais, porém, em nossa região não tem o mesmo significado, porque as enormes desigualdades existentes deformam qualquer raciocínio baseado em médias. 

Na tabela seguinte se mostra a quantidade de milionários por país, para alguns países selecionados, lembrando que o total deles indicado no relatório era de 46,8 milhões em meados de 2019. Pelo relatório existem no Brasil em torno de 259.000 pessoas que possuem riqueza superior ao milhão de dólares.

PaísQuantidade de milionários
USA18.614.000
China4.447.000
Japão3.025.000
Inglaterra2.460.000
Alemanha2.187.000
França2.071.000
Índia759.000
Brasil259.000
Arábia Saudita147.000
Turquia94.000
Grécia68.000

O gráfico seguinte mostra a evolução da riqueza dos 1% mais ricos em alguns países, no período de 2.000 e 2019 em vários países. Ou seja, é possível observar como a desigualdade se esticou, com o Japão como o país onde foi mais difícil acumular riqueza e a Rússia no qual mais se estendem as diferenças econômicas entre os componentes da sociedade, com o mais forte acumulo de riqueza pelos seus milionários. Com exceção do Brasil, onde é possível observar como no último e atual governos (2016-2019) está sendo possível aos participantes desse 1% da população aumentar rapidamente sua riqueza, em todos os outros houve uma diminuição dos índices nesse mesmo período. 

Mais uma vez, uma organização que não pode ser qualificada nem de esquerda nem terrorista, mostra como o país trilha caminhos equivocados se mantendo entre os mais desiguais do mundo. 

No caso do Brasil surge a pergunta, como foi possível aos 1% dos milionários obter crescimento de sua riqueza, durante os anos em que o crescimento da economia foi negativo ou próximo de 0%? A resposta é simples: os juros oferecidos pelo sistema financeiro para grandes fortunas sempre foram altos. Entanto que os juros cobrados de pessoas físicas e jurídicas foram astronómicos, impedindo tanto o consumo das famílias quanto a produção.    

Source: James Davies, Rodrigo Lluberasand, Anthony Shorrocks, Global wealth data book 2019

O relatório traz também algumas declarações sobre os objetivos e o papel da riqueza familiar na economia, como por exemplo:

“A riqueza familiar é uma componente chave do sistema financeiro que tem como objetivo suportar o consumo futuro, ser um seguro contra desemprego, uma proteção contra aposentadoria, contra doenças ou desastres naturais; sendo menos importante nos países mais estruturados e cada vez mais importante nos países em desenvolvimento. ”

O método utilizado pelo Credit Suisse Research Institute estuda a riqueza composta por ativos financeiros e ativos reais menos as dívidas, que apresentam o comportamento mostrado na figura seguinte. 

O efeito da crise de 2008 é visível na participação dos ativos financeiros, que não entanto mostram uma rápida e forte recuperação nos anos seguintes. Claro que este prognóstico não considerou a realidade da pandemia atual, de forma que a projeção do futuro contida nesse gráfico, terá de ser revista na próxima edição. De qualquer forma fica evidente que na formação da riqueza, a parte que acumula riqueza de forma não produtiva é mais importante que a produtiva. Outro desastre dos sistemas de governo atuais. 

Precisamente a riqueza acumulada pelos cidadãos dos USA também provem prioritariamente desses ativos financeiros, entanto que na maioria dos outros países que ocupam as principais posições no ranking a maior parte provem de ativos reais. As valorizações de ativos de natureza relacionada com capital humano não fazem parte do método. A listagem de bilionários produzida pelo Forbes é utilizada como insumo para produzir o relatório.

Parece-me muito longe o tempo em que conversando com minha mãe lhe perguntei sobre o a importância do dinheiro para ela e me respondeu: “não pode faltar, não precisa sobrar”.

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