Reflexões sobre o cenário educacional atual

A educação é a base para o progresso de qualquer sociedade que tenha como objetivo a melhoria da qualidade de vida e a diminuição das desigualdades sociais. Nos países em desenvolvimento, a maior barreira para alcançar essa finalidade é derivada da necessidade de existência de abundante mão de obra barata. Isto porque os modelos de desenvolvimento econômico de baixo valor agregado que praticam – baseado em commodities – exigem baixo nível educacional para conseguirem se desenvolver comercialmente. Essa mão de obra barata somente pode ser encontrada onde existe pobreza e miséria, ambientes nos quais a educação não é a prioridade. 

O mais trágico é que essa atitude míope não beneficia ninguém, nem mesmo as classes altas e, muito menos, os estratos sociais menos favorecidas, resultando em baixa qualidade de vida para todos. Por meio da modernização dos seus modelos de desenvolvimento econômico e educação, países como Japão (pós-guerra), Coreia do Sul, China e alguns do leste europeu, têm diminuído ou reduziram bastante à desigualdade social e aumentaram a qualidade de vida de toda a sociedade nas últimas décadas.  

Os dois assuntos têm que ser implementados simultaneamente, já que é a economia de maior valor agregado que demanda pessoas com nível educacional melhor. Essa relação quando não respeitada, acarreta na formação de profissionais que não encontram emprego e precisam desenvolver atividades diferentes das quais estudaram. Ou pior do que isso, acabam emigrando para conseguir empregos em outras nações. Nos dois casos a consequência para a área pública é o desperdício de recursos do estado. Para países que privilegiam o ensino gratuito de toda a população, como é o caso da Alemanha, por exemplo, onde mais de 85% das pessoas estudam gratuitamente em escolas e universidades públicas, o planejamento educacional é crítico nesse sentido.   

A situação da educação no Brasil mostra uma realidade composta pela existência de infraestrutura humana e material aceitável, alocação de investimentos em baixa nos últimos anos e péssima condução através da investidura de lideranças desqualificadas, principalmente nos postos mais altos da hierarquia pública. Não existe a compreensão de que a aprendizagem é um processo de entendimento e assimilação de uma sequência de conhecimentos encadeados. Com elos da cadeia de aprendizagem faltando ou não devidamente incorporados, ela será imperfeita e não aproveitável. Desse modo, alguém vindo de um estudo básico imperfeito, dificilmente irá se recuperar no ensino médio e a mesma situação se repete do médio para o superior. Como resultado, o sistema gera uma quantidade de formados medíocres nas diversas fases educacionais.

Seria então urgente modernizar o atual modelo de desenvolvimento econômico, em conjunto com uma reforma na educação. Como a lógica mostra e muitos especialistas tem diagnosticado com frequência, os maiores esforços de reconstrução do sistema educacional devem ser iniciados na educação básica. Esta é a tarefa de maior prioridade, que deveria ser repensada de imediato.

A segunda prioridade passa pelo ensino médio, objeto de planos de reforma elaborados nos últimos anos com a preocupação de orientá-lo, de forma que parte dos formados possa ingressar ao mercado de trabalho após conclui-lo. Para isto se propõe a escolha pelo estudante de diversas especialidades, entre elas algumas pertencentes a área técnica. 

O impacto positivo de se incentivar o maior acesso a profissões técnicas é possível de ser observado nos dados a seguir, que comparam Alemanha (país muito focado no ensino técnico), Inglaterra (com maior procura pelo nível superior) e sua relação com o Brasil. Ter uma profissão em idade jovem diminui fortemente o desemprego juvenil, fortalece o PIB per capita e parece colaborar com o nível de inovação. 


Alunos ensino superior /técnico em relação ao total de alunos no país  – %PIB per capita (2018)US$ Desemprego juvenil – %Classificação em inovação e  patentes
Alemanha     17/51  (I)47.514 (III)5 (I)Terceiro (V)
Inglaterra    31/31   (I) 42.052 (III)8 (I)Sétimo (V)
Brasil     15/4    (II)8.921  (III)27 (IV)Vigésimo quarto (V) 

      Fontes: (I) Statista 2017.  (II) Censo Escolar INEP 2018. (III) FMI 2018. (IV) IBGE 2019. 

          (V) WIPO – World Intellectual Property Organization 2017.

Obs: alguns dados forram arredondados/estimados.  

Com relação a futura demanda de mercado, em praticamente todo o mundo a procura prevista por profissionais de nível técnico é grande. Nos Estados Unidos se prevê a abertura de 50,5 milhões de empregos com esse perfil até 2022. Já no Brasil será crescente a falta de profissionais de informática – como já é atualmente – estimada em algumas centenas de milhares nos próximos dez anos.

O principal problema para implementar o novo ensino médio no país, com a componente de educação profissional incorporada, se centra na falta de recursos financeiros, especificamente para formação técnica, onde se precisa de forte infraestrutura em máquinas, laboratórios, etc. Para contornar isto seria necessário implementar uma parceria público-privada em modalidade similar ao sistema dual utilizado na Alemanha e já copiado em diversos outros países.   

A prioridade menor deve ficar temporariamente para o nível superior. Como o país é apenas usuário de produtos e serviços de médio e alto valor agregado; sem a existência de atividades relevantes em pesquisa e desenvolvimento em segmentos como o automobilístico, informática, software, telecomunicações, etc., não existe necessidade relevante de especialistas. Isto somente irá mudar quando o modelo de desenvolvimento do país for modernizado. 

Atualmente, grande parte dos engenheiros que se formam no Brasil, por exemplo, acabam trabalhando em atividades comerciais ou financeiras, muitas delas com pouco ou nenhum vínculo com a profissão estudada. O mesmo se repete, até mais fortemente, nas áreas de humanas. Portanto, a necessidade atual por profissionais de nível superior e bem menor do que poderíamos imaginar.

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