Reflexão sobre Desigualdade e Violência

A desigualdade social vai além da pobreza material. Ela se configura quando determinadas classes sociais, além de conseguir subsistir em suas necessidades básicas, não tem acesso aos mesmos recursos culturais, físicos, sociais e de conhecimento que outras. Como o combate a pobreza material depende somente de recursos financeiros, pode acontecer um pouco mais rapidamente e depende de vontade política, enquanto a diminuição da desigualdade, é bem mais demorado e exige o planejamento e implementação de uma política de estado. 

A combinação entre o sistema político, o modelo de desenvolvimento económico e a educação (ou a falta dela) adotados por um país, são os motores geradores da desigualdade social. Num estágio de desigualdade, apenas superado pelo reinante na África, se encontram a maioria dos países sul-americanos, independente dos tipos de governo atuais e dos que se sucederam no passado. O que permite ser interpretado como um problema sistêmico que não depende da orientação política dos governantes de turno. 

A constatação da existência da desigualdade social se acentuou rapidamente durante a pandemia, e certamente se agravará após seu controle, quando então a crise económica se fará presente. O conceito é incansavelmente repetido por algumas autoridades, mídia em geral e cidadãos; inclusive se levantam indicadores, se realizam medições e se diagnostica a situação atual com alguma precisão. Também ações de ajuda paliativa e pontual acontecem com frequência. O que normalmente não aparece é nenhuma ideia ou proposta de como resolver o assunto na sua raiz. O máximo que se ouve é a declaração vaga de que uma vez superada a pandemia, a vida será diferente. 

Como debatemos no livro “É possível construir uma sociedade mais justa? ”, a conclusão é que o modelo de desenvolvimento econômico de baixo valor agregado praticado, somente é viável com a existência de oferta abundante de mão de obra barata. E isso somente é possível encontrar onde a miséria existe. Tudo o contrário à situação nas sociedades mais evoluídas, onde os empregos são de melhor qualidade, se requere mais qualificação profissional e consequentemente se pagam maiores salários. Nelas a sustentação da pobreza e das desigualdades, não fazem sentido.   

Porém, em nossa região uma mudança no sentido de diminuição da desigualdade social é assunto a ser evitado pelas elites que comandam o modelo de desenvolvimento económico atual, e consequentemente pelos governos de turno, submissos aos “lobbys” delas. É uma interpretação errada, porque a melhoria do modelo de desenvolvimento econômico não significa de forma alguma a eliminação do modelo atual e sim a incorporação de atividades de maior agregado.      

Nos últimos anos é cada vez mais frequente ouvir notícias que relatam um aumento considerável do uso da violência dos governos contra as classes mais humildes da população; inclusive com mortes frequentes de crianças e jovens de baixa renda, não envolvidos em qualquer ação ilegal. Apenas vítimas que acabam sendo contabilizadas como números, nas quais governo estadual ou federal nenhum se interessa realmente. São tratados apenas como “acidentes”. 

Tudo refletindo a acertada colocação do notável escritor e sociólogo Luis Fernando Veríssimo, mostrando a situação em sua definição sobre a miséria:

“Miséria: Todas as emoções que um filho de rico tem em vídeo game, o filho de pobre tem ao vivo, olhando pela janela, só precisando cuidar para não levar bala. ”

 Refletindo sobre o assunto surge uma primeira questão: esse cuidado dos governos de “manter a paz” e procurar reprimir “ações ilegais” nas comunidades; porque não é praticado com a mesma “aplicação” em outros setores da população? Ao final, os bandidos que mais prejuízo causam a sociedade, tais como alguns donos de empreiteiras, altos funcionários dos governos, políticos, doleiros, juízes corruptos, executivos de estatais e outros, não moram nas comunidades.

Então qual seria o real motivo de tanta preocupação para se preocupar com o ambiente reinante nas comunidades? 

Os moradores nesses locais são em sua imensa maioria (ou em sua totalidade), os “perdedores” na luta diária que todo ser humano enfrenta para conseguir os recursos económicos que precisa captar para a sua vida e da sua família. Ou seja, o sistema político-social vigente permite, sem qualquer cuidado específico, que o resultado dessa disputa gere uma massa enorme de pessoas que são obrigadas fisicamente a deslocar sua moradia para lugares normalmente distantes dos centros produtivos. Assim com pouca ou nenhuma infraestrutura para levar a vida, sem contato com outros setores sociais e recebendo o salário semiescravidão (chamado formalmente de salário mínimo), configura-se o “apartheid” do futuro, como sustentado por Zigmunt Bauman em suas magníficas teorias sociais. 

Os políticos, governantes e as altas camadas da sociedade costumam chamar a estes grupos sociais de “grande povo”, “povo trabalhador”, “povo acolhedor”, “povo solidário”, na melhor mostra de hipocrisia. O objetivo é conseguir que esse “povo”, apesar da falta de um presente e futuro digno para sim e seus filhos, mantenha a ordem e continue paciente, confiando em promessas de futuro.   

Como a tecnologia de informação permite acessar o que acontece no mundo em tempo real, essa massa de pessoas vai paulatinamente acumulando informações que lhe colocam potencialmente em condições de fazer comparações e reivindicar direitos. Apenas as vezes faltam os conhecimentos e a compreensão real de onde se encontra a origem dos seus problemas e quais as alternativas para resolve-los. 

Desta forma existe sempre o risco de alguém lhes esclarecer esses pontos, criando situações que podem evoluir em reivindicações perigosas para o sistema instalado. Nada diferente as situações que aconteceram nos períodos que precederam as revoluções francesa, russa ou cubana, entre outras mais recentes.          

Daqui surge de forma implícita a resposta ao porquê da “preocupação” do sistema vigente em manter suas forças da lei e da ordem “próximas” aos locais onde eventualmente reivindicações mais importantes e estruturadas possam aparecer, e poder reprimi-las antes de que se tornem maiores. Até aqui e por muitos anos, esta prática deu certo, porém ao custo de um baixo nível de qualidade de vida para todos, habitantes ou não das comunidades existentes.

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