Que deixará a passagem da pandemia? – Primeiros ensaios

Neste blog colocamos pensamentos e incentivamos o debate sobre a maior praga que azota a muitos países, especialmente em nossa América do Sul: a desigualdade social. Ela é muito pior que qualquer vírus, porque começa a matar já no útero das mães e produz seres humanos limitados no seu crescimento intelectual, ao lhes negar todo tipo básico de insumo para o seu desenvolvimento, como alimentação, saúde e educação. 

Aqui faremos algumas considerações iniciais sobre o que o futuro, após superada a pandemia, poderá nos oferecer como cenário político social diferente ou não do atual. 

Em alguns meses terá sido superada a prova mais dura a qual foram submetidos todos os países desde o fim da segunda guerra mundial, uma afirmação que obtém concordância geral no mundo. Filósofos, sociólogos e pensadores de modo geral começam a analisar quais mudanças comportamentais podem acontecer no ambiente sócio político, que eventualmente venham a modificar o estado atual das relações entre pessoas, organizações e países. Que irá suceder a recuperação económica não há dúvidas. A pergunta é como acontecerá. Teremos mais solidariedade entre países ou assistiremos a uma corrida beligerante entre os mais fortes, para atingir uma recuperação que vai ignorar os mais fracos. Sem dúvida vai depender das atitudes que serão tomadas pelos países e blocos que atualmente ditam as principais regras no mundo. 

Alguns dizem que o futuro das relações e sistemas políticos será diferente quando a pandemia passar. Os mais românticos e sensíveis, provavelmente em minoria, pensam que é possível que a humanidade saia mais solidária e igualitária. Eles argumentam que, como o vírus é bem democrático e se apega a qualquer indivíduo sem fazer nenhuma restrição, todas as classes sociais terão sentido sua passagem e isso impactará no comportamento das pessoas. Mesmo com o fracasso de muitos países no controle da pandemia, desse ponto de vista parece difícil que aconteça alguma mudança político-social. Porem se consideramos que existem outras ameaças como o aquecimento global, que se não contido terá efeitos muito piores do que o vírus atual, seria totalmente lógico repensar a situação sistematicamente. Será? Ou a teoria das relações liquidas que o saudoso Z.Baumann nos deixou, virá a ser contestada?  

Por outro lado, não é possível esquecer que o vírus desperta o instinto de sobrevivência, que por sua vez se nutre de sentimentos individualistas e egoístas.      

A principal barreira para nos transformar numa sociedade mais solidaria será lutar contra a ideologia capitalista, dentro da qual, por princípio, investimentos preventivos não permitem visualizar com clareza qual a lucratividade esperada, objetivo principal do sistema. Assim muitos países que revisam seus orçamentos e dívidas, sozinhos ou com assessoria do FMI entre outros, cortam investimentos em saúde e educação, sem vergonha nenhuma. Exemplos clássicos nos últimos anos podem se encontrar em Espanha, Itália, Argentina, Grécia, Brasil, Chile, Estados Unidos, entre outros.    

No outro extremo se encontram aqueles para os quais a solução de todos os problemas se encontra no “mercado”. Se agrupam aqui os que seguem as correntes de pensamento neoliberal, que apostam numa corrida de recuperação que será benéfica para os mais fortes. Começa a se falar inclusive no fenómeno V (velocidade da queda igual a velocidade da recuperação), tomando como exemplo a China que já se aproxima a 70% de recuperação de sua indústria em funcionamento. A consequência é que irão ficar para trás os mais fracos, aumentando então o grau de desigualdade hoje existente. 

Uma terceira via é formada por aqueles que pensam que tudo irá continuar como era antes da pandemia, ou seja com países apresentando reações e cenários diferentes, privilegiando alguns blocos, tal qual se verifica hoje. Ou seja, a pandemia não irá modificar em nada as relações, nem aumentando a solidariedade nem estabelecendo corridas beligerantes entre os mais fortes. Ou seja, uma espécie de “acordo” (cartel?) entre os mais poderosos, que lhes permita se recuperar dentro de um ambiente de certa calma. Não achamos que isto será possível por um importante motivo: se prevê nos próximos dez anos uma troca de posições entre os dois primeiros lugares das economias mundiais, com China assumindo o primeiro e deixando os USA em segundo. Isto não foi ainda digerido pelos americanos e certamente veremos capítulos específicos sobre este assunto (conflitos) no futuro próximo.   

Para entender melhor as alternativas, seria bom analisar como os países estão enfrentando a crise. Quem sabe entendendo o porquê dos resultados que alcançam, possa se aprender alguma coisa nova.    

Começando pelos asiáticos, que mostram os melhores resultados na gestão da crise, se destacam alguns que nem sequer ao isolamento apelaram (Coreia do Sul e Taiwan) e outros como Singapura, Hong Kong, Japão e a própria China que parecem estarem controlando o vírus com maior efetividade. Buscando com um pouco mais de profundidade as razões destes sucessos, identificamos três motivos principais:   

  • estes países tem um histórico de organização político-social bem diferente da democracia. Todos eles foram governados historicamente por dinastias e ditadores, o que permite tomadas de decisão e implantação de ações muito rápidas. Mesmo hoje, muitos deles tendo aderido ao sistema democrático, mostram continuidade do mesmo partido político no poder por grandes períodos de tempo. Em outros como a China, o sistema de partido único está arraigado na sociedade. No caso específico da China, se mantido o sucesso na gestão da crise, certamente uma boa parte do mundo estudará com bastante atenção a forma em que agem, pelo menos neste tipo de situações. 
  • o segundo aspecto que contribui para se sair melhor em crises deste tipo é a obediência das pessoas e o reconhecimento do estado como autoridade, uma postura herdada dos sistemas organizacionais e de governo típicos nessa região. Faz parte da cultura asiática ouvir atentamente e se tomar um tempo para refletir antes de elaborar uma devolutiva, principalmente quando esta for na direção da discordância. Tudo o contrário da civilização ocidental, onde o latino por exemplo (bem representado pelo italiano), mostra comumente reações rápidas e vai completando seu pensamento simultaneamente quando está emitindo sua resposta. 
  • O terceiro fator que parece ter ajudado muito na gestão de esta crise tem a ver com o uso da tecnologia de informação. Em vários dos países asiáticos foram introduzidos sistemas de captação de dados que chocam ao mundo ocidental, no sentido de que “invadem” a esfera privada de cada pessoa. Em China por exemplo, a integração entre reconhecimento facial (que, entretanto, tem capacidade de medir a temperatura das pessoas filmadas), telefonia, internet, inteligência artificial e autoridades, permite chegar próximo de uma “gestão” individual das pessoas. Aparentemente isso teve um papel importantíssimo no controle do vírus. Se relatam aplicações que por aqui são desconhecidas ainda, como por exemplo o uso de drones para vigiar a quarentena de pessoas, inclusive alertando para voltar a suas casas quando detectada a infração. Em Corea pessoas chegam a receber um sinal de alarme nos seus celulares quando se aproximam a ingressar em algum edifício cadastrado, onde já se constataram contágios. Em Taiwan, via SMS, as pessoas são avisadas individualmente sobre locais e pessoas infetadas. Tudo muito tranquilamente aceito pelos cidadãos.

Na Europa a resposta a pandemia é considerada um fracasso de forma geral. Itália, Espanha e Inglaterra mostram o resultado de respostas tardias, falta de planejamento e insuficiência de infraestrutura necessária. O uso de máscaras levou um tempo de convencimento razoável para ser parcialmente implantado. Aliás a produção delas, como produto muito pouco rentável foi quase que totalmente transferida para China. 90% das máscaras no mundo são feitas atualmente no país asiático e portanto, apresentam também problemas de disponibilidade. A Alemanha com nível de contágios também alto, parece mostrar uma mortalidade inferior, graças a sua infraestrutura mais forte na área da saúde. Sendo um país com grau de desigualdade inferior aos outros, nestas ocasiões em que a pandemia ataca a todos, as vantagens de investir um pouco mais nas pessoas de forma geral, mostra suas vantagens.  

Chegando na América, os números mostram que os USA acabam de assumir a primeira posição no mundo em resultados ruins na luta contra a pandemia. O presidente, que durante um bom tempo negou a importância do vírus, mudou bruscamente de posição e agora adota as recomendações das autoridades sanitárias mundiais. Não entanto sua primeira reação foi negar a importância do vírus e tentar comprar a primeira empresa que informou estar avançada no desenvolvimento da vacina contra o COVID-19 (Laboratório CureVac da cidade de Tuebingen), que levou a resposta imediata do governo e meios de comunicação alemães utilizando o lema “Alemanha não está a venda”. O presidente Donald Trump é uma pessoa que se desenvolveu no ambiente de “ouro” pós-guerra, baixo as regras do capitalismo puro e age utilizando as ferramentas de poder que conhece: assim como manda matar quem quiser, pratica também atualmente a “pirataria moderna”, como a primeira ministra da Alemanha acaba de designar esta semana a ação em que confiscou fornecimento de material de saúde destinado a Alemanha e o desviou para os USA. Aliás, entre outros parece que o mesmo tipo de ação foi realizado com fornecimentos de materiais de saúde produzidos na China e destinados ao Brasil.   

 A improvisação para enfrentar a crise nesse país mostra a debilidade do seu sistema de saúde, tanto em planejamento quanto em infraestrutura e contrasta fortemente com as avançadas técnicas utilizada no desenvolvimento e produção de armamentos, mostrando quais são as prioridades do sistema atualmente.

Um pouco mais ao Sul, o pequeno Chile e o Brasil lideram os números ruins, mostrando curvas de crescimento do contágio e mortes bem mais verticais que os outros países da América do Sul e similares as dos USA, conforme os levantamentos da Universidade John Hopkins. Casualmente, os três países têm governos que aderem aos princípios neoliberais, onde os aspectos sociais são normalmente relegados quando se planejam investimentos. No caso do Brasil, onde o clã do presidente prega por uma política de enfrentamento a pandemia incompatível com a recomendada pela OMS, afortunadamente há resistência interna no governo que até agora o tem impedido de implementa-las. 

Nos países mais pobres da região o vírus entrou pelas classes sociais mais altas e começa agora a descer. É imprevisível o que irá acontecer quando nos próximos dias chegue as comunidades. Principalmente para o Brasil e também para outros com grandes bolsões de pobreza, as perspectivas são bem desalentadoras. 

O pensador estadunidense Noam Chomsky critica duramente a administração da crise pelo governo do seu país e declara: “a aparição do COVID-19 podia ser prevista, porem com o atual modelo económico, dificilmente recursos públicos serão destinados a cenários de prevenção hipotéticos”.    É cedo ainda para saber o que vai ocorrer quando a recuperação económica começar. A humanidade está recebendo um sinal de alerta importante, porque outras crises seguramente estão por vir. Não se precisa pensar muito para identificar a próxima, que provavelmente será a ambiental, tratada como preocupação apenas por alguns países e desprezada por outros, casualmente os mesmos que mostram sua incompetência na luta atual contra o COVID-19. Resta a aqueles que compreendem e levam a sério o sinal de alerta, a reagir e lutar por uma mudança de postura de todos. Os próximos meses deixarão mais claro o rumo que será tomado. Por isso colocamos a extensão “primeiros ensaios”, ao nome deste artigo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *