Por que não ser protagonista na indústria do chocolate?

Uma das vertentes de trabalho para lutar contra a desigualdade social consiste em melhorar o modelo de desenvolvimento de baixo valor agregado típico dos países de nossa região, como discutido no livro “É possível construir uma sociedade mais justa? ”.

Isso deve ser feito analisando os recursos e habilidades que o país possui e pesquisando as demandas existentes no mundo, por iniciativa e com apoio do estado através de políticas adequadas, assim como foi feito em vários tipos de indústrias em outros países com enorme sucesso. Exemplos dessas iniciativas são as realizadas pelo Japão pós-guerra (automobilística, ótica, fotografia), a Coreia do Sul (automobilística e vídeo) e a China (variadas), sempre dentro de políticas de estado.  

Neste blog já discutimos o porquê não ser protagonista de uma indústria tão importante quanto à automobilística. Agora, também acho relevante falarmos da indústria de chocolate, um segmento com enorme potencial no Brasil para gerarmos mais valor agregado. 

No mercado mundial do chocolate, o Brasil ocupa apenas o papel de importante consumidor. Sua participação no mercado internacional é praticamente inexistente, ainda mais se considerarmos que o país conta com todos os recursos que lhe permitiriam virar um “player” importante.  

Escolhi tratar do tema e propô-lo como sugestão de estudo pelos motivos expostos a seguir:

– o Brasil possui todos os elos da cadeia de valor do negócio do chocolate em operação. Desde o cultivo do cacau, passando pela fabricação dos componentes derivados do cacau, os outros insumos utilizados (leite, açúcar, etc.), a produção, embalagem e finalmente a distribuição do chocolate. Com pontuais exceções, o país independe de insumos, recursos e conhecimentos externos. 

– o mercado mundial tem bom potencial de crescimento, tanto nos países desenvolvidos quanto em alguns de grande população que têm baixo nível de consumo, o caso da China e a Índia, por exemplo. Historicamente, na medida em que aumenta o poder aquisitivo, o consumo do chocolate acompanha. Além disso, a agregação de valor entre o insumo básico (o cacau) e o chocolate, se reflete em valores comerciais com o chocolate financeiramente valorizado 15 vezes mais do que o cacau em unidades físicas comparáveis. 

– os chocolates finos agregam normalmente outros componentes para sua versão final, sejam frutas, licores ou cremes, por exemplo. A exuberante quantidade de frutas apenas existentes na Amazônia poderia ser um fator diferenciador mundial importantíssimo na colocação do chocolate brasileiro sofisticado nos países consumidores mais importantes.    

De acordo com o site Statista, o mercado mundial de chocolate irá alcançar em 2020 o valor de 158 bilhões de euros, subindo para 195 bilhões em 2025, dentro de um crescimento de 4,2% ao ano, com a sorte ainda de sem ser um segmento não afetado pela pandemia do coronavírus. A Alemanha é o principal país exportador. A Suíça está posicionada em décimo lugar entre os maiores exportadores. 

Já o Brasil, participa na exportação apenas como produtor de cacau, justamente o elo de menor valor agregado da cadeia e, mesmo assim, posicionado em sexto lugar nesse quesito. No que se refere ao chocolate, o país exporta menos de 100 milhões de dólares para alguns países do Mercosul. 

O Brasil já foi o maior exportador mundial de cacau até 1989, quando a aparição de um fungo (vassoura da bruxa) destruiu as lavouras. Atualmente lideram a exportação de cacau Costa do Marfim, Gana, Indonésia, Nigéria e Camarões, seguido pelo Brasil em sexto lugar, que exporta 90% da sua produção. Por outro lado, os maiores países produtores de chocolate se encontram na Europa (37%) e USA (8%). Por esse motivo as maiores indústrias são oriundas dessas regiões: Mars (EUA), Ferrero (Itália), Mondelez (EUA) e Nestlé (Suíça).

Dentro do mercado mundial consumidor de chocolate, o pais ocupa posição importante. A cadeia de valor interna movimenta mais de 20 bilhões de reais. Essa movimentação do mercado local é dominada por multinacionais suíças e americanas (Nestlé, Mondelez) que, coerente com seus modelos de negócios mundiais mostram pouco ou nenhum apetite pela exportação. 

Centenas de outras pequenas empresas regionais produzem chocolates no pais. Os números mostrados pelas diferentes organizações que fazem pesquisas de mercado no mundo são divergentes e mostram enormes diferenças entre si. É possível ler numa delas que o consumo per capita no Brasil é de 1,5 kg/ano e em outra 2,5 kg/ano. O que se sabe é que o consumo de ingleses, suíços e alemães supera os 8 kg per capita/ano.

Produzir chocolate tem certo nível de complexidade que máquinas sozinhas não resolvem. A intervenção humana para conseguir produtos de alta qualidade é importante, porém em proporção menor que a produção de vinho, mais ainda assim significativa. A tecnologia de fabricação é dominada no mercado nacional, faltando reforçar conhecimentos para atingir um melhor nível de qualidade do produto, caso se objetive chegar ao mercado internacional com chocolates finos. É natural que assim seja porque a indústria existente produz com nível médio de qualidade para atender apenas o mercado interno. 

A figura seguinte mostra a cadeia de valor de produção do chocolate e outros produtos derivados do cacau:

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O fruto é quebrado para separar as sementes da polpa. As sementes sofrem processamento em várias etapas (fermentação, secagem, fermentação química, secagem, torrefação e moagem) para se obter a massa de cacau (liquor). A partir da massa é possível separar o cacau em pó e a manteiga de cacau. Logo após, a partir da massa e a manteiga se agregam outros insumos como leite em pó, açúcar, emulsionantes e gordura. Essa mistura é então processada – prensada, peneirada e diminuída de ácidos. A seguir se adicionam outros elementos como frutas secas, passas, rum, entre outros. Depois acontece o processo de cristalização e moldagem, exposição a baixas temperaturas e, finalmente, ele é extraído dos moldes e embalado. Etapas de acerto de misturas, elevação e diminuição de temperaturas, tempos de exposição, justificam parcialmente a comparação feita com a produção de vinhos. 

Como contribuição para continuar a análises, fizemos um ensaio de matriz SWOT (análise de forças, oportunidades, fraquezas e ameaças), baseado no trabalho do economista Lucas Leite, mas adaptado especificamente ao negócio de exportação de chocolate.

FORÇAS

Produção local de todas as matérias primas
Cadeia de Valor completa existente
Conhecimento local disponível
Terra e água a longo prazo disponíveis
Infraestrutura adequada com pouco investimento
Fabricantes de máquinas para produção e embalagem existentes
Publicidade e Marketing de alto nível
Frutas e licores amazónicos exclusivos
Boas possibilidades de relacionamento com grandes exportadores de cacau
FRAQUEZAS

Necessidade de reestruturar a cultura de plantação do cacau
Fertilizantes e agroquímicos sujeitos a taxa de cambio
Estrutura da carga tributária
OPORTUNIDADES

Taxa de crescimento de mercados importantes (China, Índia) e outros
Aumento do consumo em mercados maduros
Aumento de exportações para o Mercosul
Exploração do conceito “Amazônia” no mundo desenvolvido
Melhoria de imagem como produtor ambiental
Cooperação com os principais produtores de cacau africanos
Desenho atualizado de novo conceito de negócios
AMEAÇAS

Enfrentamento a “Lobby” (somente possível como projeto de estado)
Mudança de imagem de produtor de insumos para fabricante de produto
Acordo Mercosul – Mercado Comum Europeu
Poucas barreiras para novos entrantes

A entrada do país no mercado mundial do chocolate pressupõe a implementação de uma política de estado, que durante algum tempo forneça subsídios para que indústrias locais adquiram competitividade internacional. Exatamente como fizeram e fazem os países que se destacam por ingressar em mercados sofisticados, como mostram as experiências do Japão, Coreia do Sul e China nas últimas décadas.

Se o estado brasileiro não atuar no sentido de participar como protagonista no mercado mundial de chocolates, a estrutura atual do modelo de negócios do produto não será modificada. Tudo se reduzirá a continuidade da produção local de média-baixa qualidade, a importação de chocolates finos pelas classes avantajadas e a exportação de cacau. Exatamente dentro do Modelo de Desenvolvimento Económico de baixo valor agregado praticado atualmente, que no seu final não produz divisas nem cria empregos de melhor qualidade, sem contribuir para a diminuição da desigualdade social. 

Principais referências consultadas:

– Numéricas: comexstast.

– Sites: Statista e Mercado do Cacau

– Artigo: LEITE, Lucas. Estudo de Competitividade do Cacau e Chocolate no Brasil: Desafios na Produção e Comércio Global. Brasília: Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, 2018     

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