Modelo de desenvolvimento econômico

O que acontece quando um país melhora o seu Modelo de desenvolvimento econômico? Exemplo: Coreia do Sul

No livro “É possível construir uma sociedade mais justa? ”, lançado em janeiro, foi apresentada a tese de que um país (ou um grupo social), somente pode evoluir no contexto internacional, se conseguir resolver dois assuntos:

–  no âmbito coletivo: pensar, desenhar, programar e implementar um modelo de desenvolvimento econômico, composto de negócios nos quais aproveite seus melhores recursos e habilidades, e que lhe confira posição de destaque no cenário mundial

– no âmbito individual: ajustar os valores praticados pelos seus integrantes, de forma a eliminar ou modificar aqueles valores errados, que uma educação pífia vem transferindo  de geração para geração – por muitos anos  

Neste artigo vamos tratar do primeiro assunto, utilizando o exemplo da Coreia do Sul para mostrar que é possível transformar um modelo de desenvolvimento econômico, mudando-o para melhor.

Quando uma criança é perguntada sobre o que gostaria de ser quando crescer, terá sempre uma resposta, intuitiva e guiada por imagens que lhe impressionam, tais como motorista de ônibus, doutora, bombeiro, etc. Mais tarde, quando jovem, responderá a mesma pergunta somando alguns outros critérios, tais como o gosto por aquela profissão, a situação dela no mercado de trabalho, suas habilidades e conhecimentos pessoais, etc. A transição da infância para a juventude, agrega então raciocínio lógico para a construção do objetivo de vida a nível profissional. No mundo atual, cada organização que atua no mercado nacional ou internacional, segue ou utiliza igual raciocínio para encontrar o caminho que lhe permita melhor alcançar seus objetivos. 

A lógica é a mesma quando pensamos o assunto a nível de país. Cada país é um ente diferente dos outros no mundo, economicamente desigual e pouco integrado. A busca por uma posição melhor para cada país, passa pela definição de objetivos a serem perseguidos que satisfaçam os principais critérios relacionados com os desejos da sociedade que o compõe e as habilidades e recursos que possui. Como a transformação demanda um período de tempo considerável, quem sabe duas ou três décadas, a adoção de um determinado modelo de desenvolvimento econômico é, então, uma decisão de Estado, que deve ser independente do governo em exercício. 

Na América Latina não existe histórico de planejamento nesse nível. Normalmente, as intervenções na economia são feitas pelo governo em exercício, outorgando suporte ou subsídios pontuais a alguns setores, de acordo com a situação de momento, sem nenhuma continuidade na busca por um objetivo maior. Em consequência disto, o modelo de desenvolvimento econômico vigente na maioria dos países se compõe de negócios baseados em atividades rudimentares que exploram os recursos naturais que existem (minerais p.e.) ou aquelas que usufruem do que a natureza praticamente oferece, com quase nada de esforço (agropecuária p.e.), chamados de “commodities” no seu conjunto.   

Observando os resultados que cada país alcança em suas exportações, ou seja, o que conseguem comercializar para outros países; é possível se ter uma ideia do modelo econômico que praticam. Apesar de haver pequenas variações, de ano para ano, em média os percentuais que compõem o total das exportações, por país e por classe de valor agregado nos últimos anos são (exemplo para três países):


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Argentina858?
Brasil5535?
Alemanha?4548

Fonte: pesquisas do autor

Do gráfico se desprende que o modelo de desenvolvimento econômico da Argentina é de valor agregado mais baixo que o do Brasil, sendo que este último consegue exportar alguns produtos manufaturados (autopeças, sapatos, etc). A comparação com um país desenvolvido, neste caso Alemanha, mostra que é difícil encontrar alguma exportação com baixo valor agregado originaria dele. Isto está relacionado diretamente com a qualidade de vida das pessoas, porque quem exporta commodities paga massas salariais muito menores que aquele que exporta tecnologia.

No passado, em aulas ministradas para estudantes do ensino médio, costumava utilizar um exemplo muito simples, porém didático, para explicar os resultados da troca de produtos e serviços entre países com diferentes modelos de desenvolvimento econômico. 

“Quem ofereceu um ano atrás trocar um celular pelo equivalente a 5 sacas de soja, este ano não terá nenhuma dificuldade em pedir 6 sacas de soja pelo celular, que no último ano ganhou novas funcionalidades, enquanto a soja permaneceu como sempre foi: soja. ”

A história do desenvolvimento acelerado da Coreia do Sul nas últimas décadas, chamado de “Milagre do Rio Han” (rio que corta a capital Seul), quando, entre 1962 e 1994, o país cresceu a taxas maiores de 10% ao ano, é realmente um caso digno de estudo.  Trata-se de um país de tamanho metade do Estado de São Paulo, com aproximadamente 50 milhões de habitantes. Historicamente, sempre foi dominado por invasores ou dinastias. No início do século passado, foi invadido e durante a segunda guerra anexado pelo Japão até o final da mesma, quando a península passou a ser administrada por USA e União Soviética, dividida entre norte e sul. No período de 1950-1953, ocorreu a guerra entre as duas Coreias, que terminou com a separação formal dos dois países. Neste momento, o estado do país era de miséria absoluta e destruição total. Entre 1960 e 1987, duas ditaduras diferentes governaram, até a primeira eleição direta. Daí até 2017 se segue um período democrático, porém com uma sucessão de escândalos políticos e de corrupção, inclusive com o impeachment de uma presidente. 

O ambiente político-social não parecia ser precisamente adequado para uma mudança tão drástica e positiva como a que realmente sucedeu. A explicação parece estar em alguns acontecimentos que convergiram positivamente para que acontecesse: 

– o primeiro ditador, que assumiu após a conclusão da guerra entre as duas Coreias, foi Park Chung-hee, lembrado como governante sem piedade e repressor sanguinário. Foi neste período que a mudança começou, pois ele impulsou as exportações através de enorme esforço dos trabalhadores, em regime de semiescravidão.    

– o país recebeu recursos financeiros volumosos vindos do Japão (pagamentos referentes ao tempo de ocupação) e dos USA (retribuição pela ajuda da Coreia durante a guerra do Vietnã). 

– nessa época, famílias ricas foram encorajadas (e muito apoiadas financeiramente pelos governos ditatoriais), a fundar complexos industriais de grande porte e se desenvolverem como grupos empresariais, conhecidos no linguajar local como “chaebol”. Hoje são exemplo disso Hyundai, Samsung, LG, KIA, SK Hynix (segundo produtor mundial de chips), Posco (quarto maior fabricante mundial de aço), entre outros.

– ao contrário das “recomendações” atuais para um país crescer, pregadas como adequadas pelos países desenvolvidos, a Coreia do Sul imitou o que fizera o Japão após o fim da segunda guerra mundial: se fechou à importação nos setores que desejava desenvolver, os subsidiou fortemente até se consolidarem e não incentivou o investimento estrangeiro.    

– a educação foi declarada prioridade nacional e os investimentos nela explodiram. 

Atualmente se considera que este último foi (e continua sendo) o fator fundamental da mudança que levou o país de uma posição de miséria quase absoluta ao grupo de elite dos países desenvolvidos. É possível entender e concordar com essa afirmação, quando se tenta encontrar respostas ao fato de terem aprendido em tempo recorde a lidar com assuntos tecnológicos bastante complexos como o desenvolvimento de semicondutores, comunicações, áudio, som e automóveis, entre outros.

O país apresenta também evolução social no que se refere à diminuição da desigualdade, o que significa que acontece certa redistribuição de renda, resultante do progresso. Nestes avanços, certamente a melhoria na educação tem papel fundamental. 

Nos países da América do Sul (p.e.  Brasil e Argentina), após 60 anos de indústria automobilística, se as multinacionais presentes resolverem encerrar seus negócios por aqui, praticamente nenhum carro de algum valor continuaria a ser fabricado. Não houve nenhuma preocupação em aprender como fazê-los, com certeza pela falta de um modelo de desenvolvimento econômico planejado.       

Os gráficos seguintes, publicados pelo Valor Econômico, mostram com clareza quais as consequências da mudança acontecida no país asiático:

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Comparado ao PIB per capita dos USA, precebe-se como quase todos os países da região vão ficando cada vez mais para trás. Todos eles com seus modelos de desenvolvimento econômico baseados em baixo valor agregado, fundamentalmente comodities. Apenas o Chile apresenta  numeros positivos, não porque tenha mudado fundamentalmente seu modelo, senão porque principalmente colocou mais foco nas atividades que aproveitam melhor suas habilidades e recursos naturais. 

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Neste segundo gráfico, são mostrados os valores absolutos do PIB per capita. Em 1950 o PIB per capita da Coreia do Sul era menos de US$ 100,  metade do alcançado pelo Brasil na época.  

Visualmente, os gráficos representam uma realidade de forma mais simples para compreender. O que se pode esperar do desenvolvimento futuro dos dois países abaixo mostrados, se o PIB per capita mantiver a tendência mostrada nos últimos cinquenta anos? 

Os resultados conquistados pelo país asiático foram e são consequência de esforços consideráveis. É frequente ouvir críticas sobre o quanto de “sacrifícios” em tempo e dinheiro, o sistema atual de ensino demanda dos estudantes; inclusive desde a idade em que ingressam na escola. As condições de trabalho também são ainda piores que em países mais desenvolvidos. Porém, se constata nas últimas duas décadas uma diminuição cada vez mais acentuada da desigualdade, resultado de demandas provenientes de uma população cada vez melhor preparada educacionalmente. Vários analistas consideram o país como capaz de ser um dos 10 ou 12 protagonistas principais em ordem mundial até a metade deste século; tanto nas visões técnico-científicas quanto sociais.

Retornando ao nosso cenário local, acompanhamos regularmente os comentários dos analistas em questões de economia, sobre os assuntos ligados ao desenvolvimento das sociedades regionais e identificamos duas correntes de opinião:

Uma parte deles raciocina baseado em números puros, onde eles concedem enorme importância ao crescimento da economia. Na verdade, é correto pensar que uma situação de crescimento traz benefícios financeiros, porém nada garante que esses benefícios tenham alguma influência sobre a qualidade de vida de toda a sociedade de um país e venham a diminuir a desigualdade. Irá depender da forma em que os benefícios são distribuídos, e o final desse filme medíocre já foi visto exaustivamente nos países subdesenvolvidos.

Existe outra parte de analistas que pleiteia como prioridade o aumento de produtividade para conseguir evoluir economicamente. É verdade que é necessário aumentar a produtividade num mundo cada vez mais competitivo. No entanto, se alguém se decidiu pelo negócio de plantar e comercializar bananas, utilizando esta metáfora, quais são suas perspectivas de aumentar a produtividade e as margens do seu negócio, quando comparado com outro que decidiu produzir automóveis e melhorar sua produtividade nessa atividade?

É por isto que defendemos a mudança do modelo de desenvolvimento econômico, como a melhor alternativa para se desenvolver como país e sociedade. Pode ser que um dia, alguém reúna os melhores cérebros para pensar, desenhar e programar um modelo de desenvolvimento econômico que realmente utilize os melhores recursos naturais e humanos que o país possui para neles focar e obter os melhores resultados possíveis. Se isto acontecer, então sim se estará praticando política de Estado e não de Governo. 

Por enquanto faremos o possível para colaborar, levantando e apresentando sugestões, nas futuras edições deste blog.           

1 Resultado

  1. Miguel Sacramento disse:

    Excelente artigo. Parabéns!

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