Melhoria do modelo de desenvolvimento econômico

A proposta de diminuição da desigualdade social apresentada no livro “É possível construir uma sociedade mais justa? ”, é baseada em dois pilares fundamentais que devem ser modificados para se conseguir alcançar o objetivo de viabilizar uma sociedade mais evoluída. De forma resumida, eles recomendam:

1. MELHORAR O MODELO DE DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO 

Desenvolver atividades e negócios de maior valor agregado, que possam contribuir com melhores margens comerciais e criem empregos de melhor qualidade. Para um país em desenvolvimento, com um modelo económico baseado em agronegócio, minerais e outras commodities, os preços de quase todos os produtos vendidos não são fixados pelos produtores locais, senão nos principais mercados consumidores, fora do seu controle. Quando se consegue ter produtos ou serviços com alto valor agregado, o preço é feito normalmente pelo produtor. (Exemplos atuais: vacinas, software sofisticado, eletrônica especializada, genética, inteligência artificial, etc.), gerando margens comerciais bem maiores. 

2. SUBSTITUIR VALORES COMPORTAMENTAIS ERRADOS 

O mundo tolera cada vez menos sociedades que implementam práticas antiéticas, que não cumprem compromissos assumidos, pouco respeitam a vida, mantem racismo social e de género, descuidam o meio ambiente, mantem e abusam da pobreza e da miséria, conferem privilégios extraordinários a classes específicas, entre outros males. Países que continuarem a praticar esses comportamentos, serão cada vez mais discriminados. Além disso, sem mudança nesses comportamentos, a melhoria do modelo de desenvolvimento económico descrita acima, estará comprometida. 

Neste artigo vamos debater a possibilidade de resolver o primeiro dos assuntos.  O objetivo principal é expandir o modelo de desenvolvimento económico atual, incorporando outros itens de maior valor agregado e melhorando o perfil produtivo do país, tarefa que deve ser iniciada pelo governo de turno, porem continuada numa visão de projeto de estado e não de governo. Na figura seguinte se mostram exemplos de conteúdo dessa ideia.   

Obs: 

– As setas mostrando a tendência de participação de cada um dos níveis de valor agregado no total dos negócios no modelo futuro, se referem a valores percentuais. Não significa que os negócios atuais tradicionais de baixo valor agregado diminuam em valores totais. Pelo contrário, eles devem continuamente aumentar dentro das possiblidades dos mercados internacionais. O que deve acontecer é que no total, os outros dois segmentos cresçam em sua participação percentual para se alcançar os objetivos acima mencionados.  

– No blog www.sociedademaisjusta.com.br podem se encontrar duas primeiras propostas do que se pretende com esta agregação de valor nos artigos da série “Porque não participar” . Esses dois primeiros ensaios tratam das indústrias Automobilística e do Chocolate.

– Neste modelo proposto não incluímos componentes derivados das tecnologias do futuro, como por exemplo a inteligência artificial e a biotecnologia, o que seria ambicioso demais. Naturalmente que alguns elementos poderão ser utilizados, porém longe do nível de desenvolvimento atual em alguns países desenvolvidos, que estão severamente empenhados no desenvolvimento de produtos e serviços delas derivados. Se este passo intermediário for realizado com sucesso, é possível pensar isso para uma segunda etapa. A evolução passo a passo faz parte das histórias bem sucedidas.   

Entendemos que a melhoria do modelo de desenvolvimento económico deve ser realizada em forma de um projeto que envolva a sociedade toda e conduzido por uma entidade mista que inclua governo, empresariado nacional e comunidade universitária. 

Em nossa região, os “lobbies” são extremamente fortes e naturalmente que projetos como o aqui sugerido não serão do agrado das indústrias multinacionais estabelecidas. Não entanto, o único caminho que leva ao sucesso é aquele que, pelo menos num período de tempo inicial, concentra os esforços no desenvolvimento de industrias e conhecimentos nacionais. Nenhum dos países chamados desenvolvidos, apresenta um cenário onde praticamente a totalidade dos produtos e serviços de médio e alto valor agregado estão em mãos de empresas estrangeiras, como é o caso nesta parte do mundo.

Como exemplo para quem possa ter dúvidas sobre este caminho e tenha ouvido os “conselhos” recomendando a participação do capital internacional neste tipo de empreendimento; é bom estudar como o Japão, a Coreia do Sul e atualmente a China, entre outros, conseguiram desenvolver competências próprias em importantes setores industriais. E foi utilizando prioritariamente seus próprios recursos humanos, fundamentalmente no desenvolvimento, e não derivando a tarefa para outros.

Observe-se que falamos em recursos humanos. Para obtenção de recursos materiais, existem sempre alternativas suficientes. O conhecimento somente se consegue através da preparação e o aperfeiçoamento de recursos humanos e para qualquer país que busque o seu desenvolvimento, não existe outro caminho. Como sempre, aparece aqui a necessidade de educação como requisito básico.     

Na estrutura do modelo proposto entendemos necessária a participação dos seguintes atores: 

Gestor: organização mista com representação do governo, indústria nacional, universidade e comunidade científica. Responsável pela iniciativa, a coordenação dos participantes e o acompanhamento das unidades de desenvolvimento dos projetos. Esta organização, seria mantida por recursos em parceria público-privada. 

Unidade de desenvolvimento: indústria nacional responsável por um projeto, com o suporte de universidade específica. Cada unidade de desenvolvimento seria responsável pelo desenvolvimento de um negócio/produto específico selecionado conforme os interesses do país. Os recursos humanos seriam compartilhados entre a empresa e a universidade. A participação da equipe universitária selecionada (professor e alunos), seria um componente prático incorporado ao programa oficial de ensino, para profissionais e alunos distinguidos. Os recursos financeiros para alocação dos seus recursos humanos e da infraestrutura necessária para o desenvolvimento fariam parte dos investimentos da empresa. O estado participa na implantação do negócio, através de concessões tributárias durante um período de tempo pré-fixado, no desenvolvimento e após a implantação do negócio.     

Estas questões precisam ser discutidas e aperfeiçoadas, como por exemplo na seleção da empresa interessada em desenvolver certo negócio/produto, entre outros. Segue uma primeira sugestão das três etapas (visão macro) que integram o projeto como um todo.

1. IDENTIFICAR E DEFINIR

Objetivo: debater e identificar quais as melhores alternativas de investimento em negócios de médio e alto valor agregado, do ponto de vista do crescimento económico e social para o país; capazes de serem implementados com diferenciais competitivos, de forma permanente num futuro de curto/médio prazo.  

Esta etapa deve ser conduzida por equipe com experiência em projetos de grande porte e reunindo os melhores especialistas nacionais em assuntos como: 

– recursos naturais e humanos existentes

– demanda dos mercados mundiais atuais e futuros

– desenvolvimentos tecnológicos esperados para o futuro de médio prazo

– avaliação financeira de investimentos industriais

Obs: nesta etapa a participação de grandes cérebros internacionais, sem vínculos com empresas, deve ser utilizada quanto como possível. Falamos aqui de casos como os dos especialistas americanos na pós guerra, Juran, Deming, Crosby e outros, que trabalharam com os japoneses no desenvolvimento da gestão da qualidade; assim como recentemente o prêmio Nobel de 2001 Joseph Stiglitz, que prestou enorme ajuda ao governo argentino na restruturação de sua recente dívida, entre outros exemplos bem sucedidos.  

Bem conduzida, esta etapa teria duração de 3 meses. 

2. PLANEJAR.

Objetivo: definidos os objetos dos projetos (produtos/serviços melhorados ou novos que serão objeto de desenvolvimento), identificar e selecionar as empresas interessadas e as universidades mais qualificadas para participar. Planejar todas as etapas necessárias até a implantação efetiva, assim como os mecanismos financeiros que serão aplicados e os sistemas de controle dos projetos. 

– elaborar políticas de apoio as empresas 

– selecionar empresas interessadas

– elaborar políticas de participação das universidades

– selecionar universidades qualificadas

– desenvolver metodologia de projeto  

– definir objetivos  e formas de relacionamento para cada participante.

– especificar e orçar recursos de infraestrutura necessários

Prazo de execução estimado em 3 meses

3. IMPLEMENTAR 

Objetivo: No sétimo mês devem ser iniciados os projetos por cada uma das empresas selecionadas. Os prazos de execução serão diferentes em função da complexidade do produto/serviço objetivo e depende de acordo entre a organização Gestor e a Unidade de Desenvolvimento.  

– alocar efetivamente os recursos e disponibilizar a capacidade de operação

– supervisionar e controlar o andamento dos projetos 

– avaliar protótipo (s) e confirmar viabilidade comercial

A macro descrição acima deriva de nossas experiências em projetos similares, realizados com objetivo de desenvolvimento de novos produtos e serviços para diferentes mercados. Neste momento o objetivo principal é mostrar que tarefas deste tipo não são impossíveis de realizar a nível país. O investimento do estado é mínimo e o sucesso destes empreendimentos depende diretamente do nível de conhecimento, da produtividade e da motivação dos participantes. 

Os benefícios de um pais desenvolver de forma continua esta atividade, assim como se faz no chamado primeiro mundo, são a melhoria de sua participação nos negócios globais, a geração de melhores empregos, o aprimoramento do nível educacional e no resumo final a melhoria da qualidade de vida e a diminuição das desigualdades sociais.

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