Integração Empresa – Escola

Introdução: na realidade local, a colaboração entre empresas, universidades e governo é praticamente inexistente. Os benefícios que se extraem em outros países dessa parceria, são quase ignorados em nosso mercado, devido ao modelo de desenvolvimento de baixo valor agregado, que pouco demanda de novos desenvolvimentos e inovações. Além de ser uma ajuda importante para os futuros profissionais, há um potencial enorme de desenvolvimento de conhecimentos de alto valor agregado nesta prática. A Dra Karoll Haussler Carneiro Ramos é um dos raros professores que investe seus esforços pessoais com sucesso nesta empreitada e relata no artigo a seguir suas experiências.       

Os desafios de conquistar o primeiro emprego ou de se estabelecer no mercado de trabalho podem encontrar inúmeras justificativas, como crises econômicas, sociais, políticas e agora caos na saúde pública. Entretanto, existem abordagens de ensino que se tornaram remédios eficazes, pelo menos para a questão da empregabilidade. Neste ensaio destacaremos a aplicação bem-sucedida da Aprendizagem Baseada em Projetos (do inglês Project Based Learning – PBL). Bem-sucedida no sentido do aprendizado, mas também da empregabilidade. Como assim? Vamos relembrar que o aprendizado em instituições de ensino superior visa, dentre seus muitos objetivos, a profissionalização do corpo discente, ou seja, tornar o aluno em um profissional para ser aproveitado pelo mercado. Aí está o desafio. Será que as instituições ou melhor os professores podem atuar de forma efetiva na construção dessa ponte? 

A separação da academia e do mercado é uma característica brasileira. Nos Estados Unidos da América, a maioria dos doutores estão no mercado. Os professores das universidades estão empenhados no desenvolvimento de novas formas de trabalho ou de soluções para a indústria. Na Alemanha para um professor ingressar como adjunto em uma universidade conceituada precisa ter pelo menos cinco anos de experiência bem-sucedida na Indústria. Na China, os cursos focam em ganhos de produtividade para determinado setor da economia, como é o exemplo do curso superior para elaboração de projetos em 3D, contribuindo para o aumento da produtividade no setor da construção. O distanciamento da academia com o mercado, não tem sentido e traz prejuízos para a profissionalização dos alunos. Veja que nessa perspectiva, a academia faz parte da cadeia de valor do mercado.

Sem mais delongas, traremos uma das abordagens ativas de ensino responsável direta pela contratação de centenas de alunos. 

Inicialmente, consideramos algumas duras premissas:

  • O mercado não é mãe. 
  •  “Quem faz a universidade não é o aluno”, é um compromisso dos alunos, dos professores e da instituição. 
  • A relação entre mercado e emprego é a mesma da Oferta e Demanda. Hoje são muitos egressos e poucas vagas. 
  • Para o mercado, trabalhadores são recursos humanos e os talentos são recursos escassos e desejáveis.
  • Título não traz emprego.

Está pronto? Vamos lá. 

Ao iniciar meus trabalhos em uma instituição de ensino superior, deparei-me com os lamuriosos sentimentos dos meus alunos: “não há emprego”, “não vale a pena sonhar” entre outros murmúrios de desolação. 

Entretanto, numa outra ponta dessa mesma instituição, deparei-me com uma outra realidade – alunos disputados por grandes empresas (Coca-Cola, Microsoft etc), desejados pelo mercado regional e pelo nacional. Mas o que tinha esse lugar de diferente? A aplicação da Hélice Tríplice em sua plenitude. Suscintamente, Hélice Tríplice ou Triple Helix é uma parceria (formal ou não) entre empresas, universidades e governo na busca por inovação. Como os alunos puderam se beneficiar dela? Esse é o pulo do gato. A inovação é produzida pelos alunos por meio da abordagem ativa PBL. Nessa abordagem, o desafio consiste no desenvolvimento de um projeto em que a entrega final é um produto ou serviço para um cliente real (governo ou empresa). Especificamente na Europa, em que essa abordagem é amplamente utilizada, as instituições de ensino incentivam a participação interdisciplinar e intercursos. Assim, nos projetos podem participar alunos e professores de diferentes faculdades ou disciplinas com competências afins ao projeto. A partir dessa experiência, os alunos desenvolvem competências específicas a sua formação (hard skills) e competências transversais (soft skills), como: análise de problemas, resolução de problemas, trabalho em equipe, comunicação verbal e oral. 

Adaptamos o PBL para uma disciplina e definimos os elementos centrais: cliente real (governo ou empresa privada – parceira não formal); tutores (especialistas em gerenciamento de projetos voluntários, agradecimento ao Project Management Institute – PMI); monitores (alunos com melhores rendimentos do curso); alunos. Especificamente sobre os alunos, já no primeiro dia de aula, esses são informados sobre o método (Figura 1). 

Figura 1modelo de PBL para alta empregabilidade.

Em nossa experiência, após essa comunicação cerca de 70% desistem da matéria, seja por falta de tempo, por falta de interesse e até mesmo medo em se comprometer. Veja que para nós, isso não é motivo de tristeza, muito pelo contrário, nosso foco é encontrar alunos motivados e comprometidos com a causa. Talento sem comprometimento ou responsabilidade não nos interessa.  

Depois, os alunos são divididos em grupos. Esses grupos assumiram algumas oportunidades de melhoria do cliente e a partir daí surgirão os projetos. O final do projeto é celebrado através de uma apresentação para banca formada pelo cliente, tutores e potenciais contratantes, que elege um projeto vencedor, dando destaque aos melhores alunos. A partir dessas bancas, muitos alunos foram selecionados e contratados. Vale destacar que já tivemos contratações realizadas por tutores durante o desenvolvimento do projeto. Por fim, esse processo não termina aqui, descobrimos que não basta empregar é preciso “dar asas”. 

Com a conclusão da disciplina, os alunos são convidados a participar de um grupo de estudos e pesquisas com o objetivo publicarem em formato de artigo seus projetos. Tal esforço se mostrou absolutamente válido, quando um dos participantes do grupo ganhou um concurso para estudar em uma das melhores universidades da Austrália – advinham o que pontou mais: publicação. Esse se mostrou um diferencial competitivo, afinal a oferta é grande. 

Graças a esse ciclo, os resultados alcançados foram premiações em eventos regionais, apresentação de trabalhos em congressos internacionais, publicação em journals. Outra estratégia para a formação dessa super turma, são os treinamentos com profissionais do mercado ou professores de instituições internacionais. E desses encontros surgiram convites de intercâmbio.

Por fim, o método é eficiente. Dá trabalho. Mudar nem sempre é agradável. Dizer que assumimos novos riscos todo semestre parece coisa de louco, mas a missão que escolhemos é essa. Para evoluir, aceitamos sermos avaliados pelo mercado, pelos tutores e pelos alunos. Sim, porque para crescer é preciso escutar e se reinventar. Contudo, não há satisfação maior do que visitar uma grande empresa ou uma empresa de destaque e encontrar esses golden boys and girls.

Por Karoll Haussler Carneiro Ramos

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