Entrevista de Drauzio Varella – Desigualdade e Corona vírus

O médico cancerologista Drauzio Varella concedeu esta semana uma entrevista sobre a pandemia e abordou o assunto do ponto de vista das consequências que irá provocar no país. Não sendo um político, colocou a situação com muita racionalidade ao vincular a gravidade do assunto a desigualdade social reinante. É muito bom ouvir opiniões fundamentadas e inteligentes, no lugar de pretender diminuir os efeitos da doença ou procurar enganar a população com os dizeres “vamos lutar juntos” e “estamos todos no mesmo barco”.      

Reproduzindo parte de suas afirmações: “Vencer o avanço da pandemia no Brasil, exigirá estratégias e obstáculos diferentes do que foi observado em países da Europa e da Ásia. A principal peculiaridade brasileira é a imensa desigualdade social, que impõe condições de vidas muito distintas para ricos e pobres, limitando o acesso de grande parte da população às práticas que previnem o contágio, como lavar as mãos, comprar álcool gel e praticar o isolamento social. ”

Neste blog sustentamos que a desigualdade é uma opção política que a sociedade toma através dos governantes que ela mesma escolhe, combinada com a adoção de um modelo de desenvolvimento primitivo e inadequado, concentrado em atividades de baixo valor agregado. Esta mistura condena um país a conviver com baixa qualidade de vida, como tratado no livro “E possível construir uma sociedade mais justa? ” 

A pobreza material tem características que permitem que seja atacada por um governo, com resultados bastante rápidos. Basta a vontade política para transferir renda, o que pode ser realizado com relativa velocidade. Isto é importante, porém nunca configura a solução completa, como mostraram inúmeras vezes governos populistas de esquerda ou de direita. Sempre é necessário que exista a devida “contrapartida”, única forma de evitar dádivas que culturalmente não são uma boa solução.

Na entrevista o Dr. Drauzio Varella aponta para as decisões erradas e suas consequências futuras:

“Anos atrás, nós decidimos sediar a Copa do Mundo e a Olimpíada no Brasil. Bonito, né. Daí construímos esses elefantes brancos que hoje são um problema para os governos estaduais, que os mantêm com dificuldade. Na época a gente dizia pô, mas esse dinheiro tem que ir para saúde, educação, não tem sentido fazer estádios. E o que eles diziam? Que nós éramos parte da elite, que queria negar aos pobres as alegrias do futebol. Muito bom. Agora estamos pegando esses estádios e transformando em quê? Em hospitais. ”

Muitos se perguntam sobre o que irá acontecer quando a pandemia passar ou for mitigada. Deixará algum aprendizado útil? As opiniões vão de um extremo a outro. Esta semana o respeitado ativista americano Noam Chomsky alerta que o desespero pela reconstrução económica “vai levar aos estados mais fortes e altamente autoritários a aumentar a pressão neoliberal, incrementando as desigualdades no mundo todo”. 

O Dr. Drauzio Varella manifesta opinião mais otimista, porem limitada ao espaço interno: “Acho que sim, acho que vamos sair dessa experiência de maneira diferente. Acho que o sofrimento é uma pressão para o aprendizado. Todos nós vamos perder amigos, muitos vão perder pessoas da família, e isso vai nos ensinar que não é possível viver como nós vivíamos até aqui. ”

“Essa irresponsabilidade social que nós temos tido no decorrer de tantos anos está nos levando a uma situação muito difícil agora, e isso vai deixar um aprendizado. Primeiro: o SUS nunca mais vai ser o mesmo, porque nós agora estamos conscientes da importância dele. A saúde tem que ter prioridade porque nós não vamos conseguir construir um país civilizado com esse desnível de acesso, onde alguns têm acesso à melhor tecnologia, aos melhores médicos, aos melhores hospitais, e outros ficam relegados ao que é possível dar para eles. E o que é possível dar para eles não é grande coisa, porque o investimento é pequeno e a gestão é precária. Eu acho que vamos sair disso diferentes. ”

Refletindo sobre o cenário nacional e internacional atual, é possível que o aprendizado ao que o Dr. Drauzio Varella se refere, não aconteça na dimensão que ele espera. Um pouco mais provável (apesar de indesejado), nos parece o prognóstico de Chomsky. Isto baseado na imagem que nos passam os atuais líderes em vários países do mundo. Aliás, neste contexto resulta interessante repetir aqui uma reflexão manifestada por José Mujica (ex presidente do Uruguai) numa entrevista concedida este mês:

“Quando vejo o nível dos líderes que a democracia está nós fornecendo nos últimos tempos, penso senão seria melhor escolhe-los por sorteio”.     

Fonte: site Geledés – Instituto da mulher negra – Entrevista a BBC News em 22/04

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