Encíclica Fratelli Tutti – Parte 3

É no capítulo 5 que o Papa Francisco coloca suas opiniões pessoais sobre o funcionamento político-governamental no mundo atual com bastante clareza. Para o público católico é possível que seja este o capítulo mais importante da carta encíclica para conhecer com mais profundidade a personalidade do Papa.  

Cap. V A política melhor. 

A primeira colocação significativa está relacionada com populismo e liberalismo:

O desprezo pelos vulneráveis pode esconder-se em formas

populistas que, demagogicamente, se servem deles para os seus fins,

ou em formas liberais ao serviço dos interesses económicos dos

poderosos. 

O prejuízo que ambos causam aparece latente em nossa realidade. Sejam de esquerda ou de direita, os populistas vêm sendo eleitos via processo democrático. O motivo é que grande parte da sociedade carece de estrutura para refletir corretamente sobre as consequências de se escolher uma pessoa inapta para conduzir o governo. Recentemente o saudoso ex-presidente do Uruguai José Mujica, fez mais uma de suas inteligentes (desta vez humorística) declarações críticas: “o processo democrático está gerando líderes de tão baixo nível, que provavelmente não faria nenhuma diferença e seria menos custoso escolhe-los por sorteio simples”. 

Na carta Francisco explica sua versão do “populismo”, o significado do conceito “povo” e as consequências de se enveredar pelo caminho de procurar se sustentar em posições de governo de qualquer forma:

Degenera num populismo insano, quando se

transforma na habilidade de alguém atrair consensos a fim de

instrumentalizar politicamente a cultura do povo, sob qualquer sinal

ideológico, ao serviço do seu projeto pessoal e da sua permanência

no poder.

A seguir trata o conceito de liberalismo:

O mercado, por si só, não resolve tudo, embora às vezes nos queiram fazer crer neste dogma de fé neoliberal. Trata-se dum pensamento pobre, repetitivo, que propõe 

sempre as mesmas receitas perante qualquer desafio que surja. 

Por um lado, é indispensável uma política económica ativa, visando 

promover uma economia que favoreça a diversificação produtiva 

e a criatividade empresarial, para ser possível aumentar os postos 

de trabalho em vez de os reduzir.

O liberalismo e sua continuidade no neoliberalismo, como já foi tratado neste blog, parte do princípio que o lucro sem limites é condição “Sine Qua Non” para desenvolver e retribuir a criatividade humana e que o acúmulo de riqueza por poucos beneficia a todos, através do conceito de “derrame” ou “gotejamento”. A partir da crise financeira de 2008, estas ideias se acentuaram: 

Deixai-me repetir aqui que a crise financeira dos anos 2007 e 2008 era a ocasião para o desenvolvimento duma nova economia mais atenta aos princípios éticos e para 

uma nova regulamentação da atividade financeira especulativa e da 

riqueza virtual. Mas não houve uma reação que fizesse repensar 

os critérios obsoletos que continuam a governar o mundo. 

Antes pelo contrário, parece que as reais estratégias, 

posteriormente desenvolvidas no mundo, 

se têm orientado para maior individualismo, 

menor integração, maior liberdade para os que 

são verdadeiramente poderosos e sempre 

encontram  maneira de escapar ilesos.

O poder internacional, representado frequentemente por empresas que são mais poderosas que países, por exemplo, também é objeto de tratamento na carta:

O século XXI assiste a uma perda de poder dos Estados nacionais, sobretudo porque a dimensão econômico-financeira, de caráter transnacional, tende a prevalecer sobre a política nacional. Neste contexto, torna-se indispensável a maturação de instituições internacionais mais fortes e eficazmente organizadas, com 

autoridades designadas de maneira imparcial por meio de acordos entre 

governos nacionais e dotadas de poder de sancionar.

O Papa considera a ONU como ferramenta válida e útil e defende a política independente da economia e da tecnocracia, como caminho para governabilidade social e bom cuidado da terra. Esta última considerada como um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir a geração seguinte.  Em algum momento, políticas fracassadas levam a situações bem conhecidas na região. Ao respeito, o Papa afirma:

Não se pode enfrentar o escândalo da pobreza promovendo estratégias de contenção que só tranquilizam e transformam os pobres em seres 

domesticados e inofensivos. Como é triste ver que, por detrás de 

presumíveis obras altruístas, o outro é reduzido à passividade.

A pandemia obrigou a prática da ajuda emergencial, que justamente cumpriu a finalidade acima relatada na carta. O mais triste é que, mesmo em tempos fora pandemia, as “estratégias de contenção” utilizadas para “tranquilizar” os miseráveis (bolsa família e outros) geram resultados, no sentido de que evitam as reivindicações e reclamações. Aliás no caso do Brasil, considerando os índices de desigualdade social recordes, essa passividade pode ser considerada extrema, o que por enquanto, deixa as elites e os governantes de turno, muito satisfeitos.

Cap. VI Diálogo e Amizade Social.  

Na opinião do Papa, apesar de conversações parcialmente existirem entre diferentes correntes de opinião no mundo, não necessariamente significa a existência de diálogo, parecendo em muitos casos uma relação entre surdos. 

A falta de diálogo supõe que ninguém, nos diferentes setores, está preocupado com o bem comum, mas com obter as vantagens que o poder lhe proporciona ou, na melhor das hipóteses, com impor o seu próprio modo de pensar. Assim a conversação reduzir-se-á a meras negociações para que cada um possa agarrar todo o poder e as maiores vantagens possíveis, sem uma busca conjunta que gere bem comum.

No texto o Papa prega fortemente o “encontro” como viabilizador do diálogo:

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro na Vida. Na realidade, de todos se pode aprender alguma coisa, ninguém é inútil, ninguém é supérfluo. O que conta é gerar processos de encontro, processos que possam construir um povo capaz de 

recolher as diferenças. Armemos os nossos filhos com as armas do diálogo! 

Ensinemos-lhes a boa batalha do encontro!

A carta encíclica fecha este capítulo pedindo o crescimento da amabilidade, que não seria um detalhe insignificante senão uma prática que mostra estima e respeito, transforma as relações sociais e pavimenta o caminho da amizade, facilitando a busca de consensos.

Cap. VII Percursos dum novo encontro.

Neste capítulo trata-se a retomada de situações não resolvidas através de um processo de cura e um novo encontro, sempre a partir da verdade. A verdade, a justiça e a misericórdia seriam o trio essencial para construir a paz; gerando os resultados de reconciliação e perdão. 

O outro nunca há de ser circunscrito àquilo que pôde ter dito ou feito, mas deve ser considerado pela promessa que traz em si mesmo, uma promessa que 

deixa sempre um lampejo de esperança. A promoção da amizade social 

implica não só a aproximação entre grupos sociais distanciados a partir dum período conflituoso da história, mas também a busca dum renovado encontro 

com os setores mais pobres e vulneráveis. 

O Papa estende estes pensamentos a situação atual dos países com maior desigualdade social e faz uma séria advertência:

Aqueles que pretendem pacificar uma sociedade não devem esquecer que a desigualdade e a falta de desenvolvimento humano integral impedem que se gere a paz. Na verdade, sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão

um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há de provocar a explosão. 

Quando a sociedade – local, nacional ou mundial –abandona 

na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, 

nem forças da ordem ou serviços secretos que possam 

garantir indefinidamente a tranquilidade. 

Na carta são ainda analisadas duas consequências sociais extremas: a guerra e a pena de morte. Na opinião do Papa, o período em que a paz era um objetivo que parecia estar evoluindo positivamente, está finalizando. O mundo estaria entrando numa situação mais perigosa “dado que se estão a criar novamente as condições para a proliferação de guerras”. Lembrando que a guerra é o fracasso da política e da humanidade; a busca do entendimento através do diálogo internacional é o caminho recomendado. Quanto a pena de morte, se reforça que a Igreja deve lutar de forma clara para sua eliminação em todo o mundo. 

Cap. VIII As religiões ao serviço da fraternidade no mundo   

O conteúdo deste capítulo é sobre a contribuição das diferentes religiões para o avanço do bem-estar no mundo; que na opinião de Francisco, não são suficientemente ouvidas:

Não se pode admitir que, no debate público, só tenham voz os poderosos e os

cientistas. Deve haver um lugar para a reflexão que provém de um fundo

 religioso que recolhe séculos de experiência e sabedoria.

O culto a Deus é o foco deste capítulo, o que permite dispensar comentários vinculados ao nosso tema principal, a desigualdade social. No encerramento o Papa se diz motivado por São Francisco de Assis e muitos outros não católicos como Martin Luther King, Desmond Tutu e Mahatma Mohandas Gandhi. 

O conjunto das declarações contidas nesta carta encíclica mostram uma pessoa que vai além do seu conteúdo religioso, universaliza e debate suas posições de uma forma bastante incomum (transparente e aberta) na história da igreja católica recente. Creio serem estes aspectos, uma parte dos motivos que lhe trazem o reconhecimento como líder.

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