Desigualdade e pandemia: a relação de Gustavo e Maria.

Os nomes são naturalmente fictícios. 

Gustavo é um integrante da classe média alta, executivo bem-sucedido, que mora no seu confortável apartamento, com esposa e dois filhos menores de 10 anos e possui uma casa na praia. As empresas onde ele e sua esposa trabalham, decidiram fazer um período de home office. Seus filhos terão aulas on-line. 

 Maria é sua empregada doméstica, viaja ao redor de uma hora de ônibus, tomando duas conduções, vive numa casa de 30 metros quadrados com seus pais idosos que tomam conta dos seus dois filhos. Gustavo paga mensalmente a Maria o salário semiescravidão vigente (chamado de salário mínimo).

No primeiro dia em casa, Gustavo chama Maria para lhe passar algumas orientações sobre o período de isolamento social. Reforça a ela conceitos básicos de higiene e cuidados especiais: uso de máscara, lavagem de mãos, distância mínima entre pessoas, uso de álcool gel, etc.; que terão de ser praticados durante esse período. Afirma que “temos uma ameaça comum, que nos afeta a todos por igual, e que temos que combater juntos com estas medidas”. 

Maria segue todas as orientações o melhor que consegue. No fim do expediente volta para sua casa no transporte público bastante lotado, sem a máscara que teve de jogar fora e será substituída no dia seguinte. Quando chega em casa percebe que ali as distâncias mínimas entre pessoas não podem fisicamente ser respeitadas, para álcool gel e máscaras o orçamento é insuficiente. Se providenciar sabão suficiente terá que deixar algum alimento fora das compras nos próximos dias. O pai idoso já apresenta sintomas do vírus e ela tem que apoiá-lo no tratamento, primeiro em casa e depois hospitalar.       

Um dia a pandemia termina e Gustavo agradece a Maria o apoio recebido e lhe diz “Muito obrigado, conseguimos passar sem maiores problemas porque trabalhamos juntos”. Maria perdeu seu pai durante o período, seus filhos não acompanharam aulas porque não tem computador em casa, sua mãe está extremamente debilitada após o período. Ela não reclama, porem está convencida que o “trabalhamos juntos” que acabou de ouvir, não é justo.

A hipocrisia praticada por grande parte da sociedade e pelas próprias autoridades ao utilizar o termo “estamos no mesmo barco” é tão falso quanto possível. A desigualdade social é a pior doença que existe e o castigo que aplica aos mais vulneráveis é totalmente inumano.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *