Crise no Chile – Resultado do modelo neoliberal que aumentou a desigualdade.

O Chile é um país com geografia diferente e única; uma franja de 4.270 km de extensão de norte a sul por 177 km de largura, localizado entre a Cordilheira dos Andes e o Oceano Pacífico. Com uma população de aproximadamente 18.500.000 milhões de habitantes, o que resulta em ao redor de 25 habitantes por metro quadrado, praticamente igual a densidade demográfica do Brasil. Ela é composta por 51,6% oriundos da Europa, 42,1 indígenas (no passado incas e araucanos) hoje chamados maiormente mapuches e 6,3% afros descendentes. Ou seja, com um percentual menor de imigração que nos países vizinhos.    

Até meados do século passado, quando a comunicação baseada em tecnologia não tinha o potencial atual, o país era algo isolado do resto do mundo. Incluso essa característica levou a muitos nazis no final da segunda guerra a se refugiar lá. Riquezas naturais, pouca população, diferentes climas, imigração europeia, baixa escolaridade, entre outros; lhe conferiram por muito tempo uma certa estabilidade social, com a existência de uma pequena classe alta que incluía participação de empresários, fazendeiros e militares, e outra baixa com enorme distância entre ambas.

A aristocracia chilena costumava formar profissionais nos USA e como resultado disso se estabeleceram contatos entre essa comunidade e professores de universidades americanas. Logo após o final da segunda guerra, professores de Economia da Escola de Chicago, assinaram contratos de concessão de bolsas para estudantes chilenos, começaram a dar aulas no Chile e prestar serviços de estudo dos problemas locais, sempre utilizando as técnicas neoliberais, com o efeito de diminuir significativamente a participação do estado na economia. Isto em conjunto com os profissionais chilenos que retornavam ao país após seus estudos naquela Escola, o que levou à origem do apelido “Chicago Boys” para eles.

A linha de pensamento neoliberal defendido na Escola de Chicago, seguia os princípios  do britânico John Keynes. Nesse momento de início da guerra fria, entre as diretrizes político-econômicas vigentes, se destacava a de diminuir a participação do estado na economia, para poder dar liberdade à aplicação de princípios capitalistas da forma mais pura possível e diminuir significativamente a participação do estado.       

Em sentido contrário a essas ideias, em inícios dos anos 70, chegou ao poder o socialista Salvador Allende com iniciativas de combater a desigualdade existente e criar uma classe média, com política e medidas que privilegiavam a forte participação do estado. A estatização de empresas sem planificação nem justificativas adequadas, concessões económicas além das possibilidades existentes e principalmente o descontrole entre os recursos disponíveis e a velocidade das mudanças propostas, levou a uma desorganização da economia e alta da inflação.  

Ao fato de que estas ideias já contrariavam demais as elites dominantes, somou-se o descontentamento do governo americano ao ver que, em tempos de guerra fria, estava aparecendo um segundo governo de esquerda na América Latina. Assim, foi encomendada a CIA (Central Intelligence Agency) a ajuda necessária para preparação e execução de um golpe militar para destituir o governo Allende. Isto aconteceu finalmente em 1973 conduzido pelo general Pinochet, que deu início a uma das mais sanguinárias ditaduras latino-americanas entre os anos de 1973 e 1990, deixando mais de 3.000 mortos e desaparecidos.

Enquanto se processava a eliminação de opositores, a cúpula militar procurava retomar o controle da economia. Neste período, os formados na Escola de Chicago, já integrados a elite chilena, começaram a ocupar cargos importantes nos quadros da ditadura. Aos poucos Pinochet foi se convencendo de que a alternativa de impor um novo modelo económico que fizesse do Chile um país diferente na região, seria um bom caminho.

O ponto de mudança se deu em 1975 por ocasião da visita ao Chile de Milton Friedman (prêmio Nobel de Economia em 1976) e principal representante da Escola de Chicago na época. Ele convenceu finalmente o General Pinochet a entregar o controle total da economia aos “Chicago Boys” para implementar um modelo neoliberal o mais “puro” possível, aderente com as ideias do capitalismo ortodoxo, aproveitando a oportunidade de não haver possibilidades de nenhuma contestação social, devido a brutal ditadura vigente. Estava assim se dando início ao que foi chamado nos USA de “laboratório” neoliberal da Escola de Chicago na américa do Sul.

Nos 15 anos seguintes foram aplicados princípios económicos-sociais numa linha de pureza teórica, de uma forma que em nenhum outro lugar do mundo tinha sido possível, tais como:

  • Do lado económico

– diminuição do estado

– equilíbrio fiscal

– desregulamentação

– reforma tributária

– controle da inflação

– liberalização do cambio

– privatização de empresas

– privatização da educação e da saúde

– fim da aposentadoria pelo estado

– abertura do mercado a importação

– abertura ao capital externo

– diminuição de impostos as empresas

  • Do lado social

– salário mínimo baixo (que resulta hoje aplicado à metade da população).

– aposentadoria financiada pelo próprio trabalhador (fim da previdência social). Atualmente, na média o valor da aposentadoria não chega a 30% do último salário.

– 15 dias de férias

– universidade pública paga (as vezes mais cara que a privada)

– saúde paga, não existe saúde pública ao igual que nos USA

– jornada de trabalho de 45 horas

– parada de meia hora para almoço

– sindicatos sem nenhuma força de negociação

– repressão brutal para qualquer tipo de manifestação, sem nenhuma diferença com as práticas comuns ao governo da Venezuela  

Uma boa parte das medidas acima foram respaldadas pela Constituição de 1980 elaborada pela ditadura e que, embora tenha sofrido algumas modificações em 1989 e 2005, no seu contexto geral defende os princípios daquele grupo dominante.   

Com esta plataforma de medidas foi possível ao país configurar uma situação de “milagre económico” no que se refere aos índices alcançados nessa área. Os governos que sucederam à ditadura, alguns de esquerda e outros de direita que se alternaram no poder, não modificaram o cenário construído durante a ditadura, seguramente com temor a influenciar negativamente os indicadores económicos de sucesso. 

Alguns índices nos quais o país superou seus vizinhos sul-americanos, sempre com o cuidado de lembrar que vários deles refletem valores médios e não significa que internamente sejam números bons para toda a sociedade, são: 

  • PIB/capita
  • IDH – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD)
  • Educação – PISA Programme for International Student Assessment 
  • Competitividade – Fórum Económico Mundial
  • Facilidade de fazer negócios – Doing Business.org 2020 – World Bank
  • Classificação de risco – S&P Standard and Poors “A” – Moodys “A1” – Fitch “A”

A situação de enorme desigualdade entre classes sociais não foi alterada, provavelmente confiando na forma pacifica das reclamações, até os acontecimentos iniciados em 2019.

O “milagre” económico chileno, no que se refere ao crescimento económico do país, apresentou resultados parecidos ao chamado “milagre” brasileiro. Nenhum dos dois trouxe resultados positivos para a qualidade de vida dos seus respectivos povos, ficando limitado a distribuir seus benefícios principalmente as elites dominantes. Ainda é lembrada a famosa frase justificativa do ministro de fazenda brasileiro da época, quando questionado sobre à repartição dos benefícios do milagre: “é preciso deixar o bolo crescer, antes de distribuí-lo”.      

O desprezo com a qualidade de vida da população chilena e a divisão clássica gerada pela aplicação do “capitalismo selvagem” no modelo neoliberal adotado, levou ao resultado previsto: a divisão da sociedade entre “ganhadores” e “perdedores”.  Faltou ao modelo a componente social capaz de “frear” os malefícios da aplicação dessas teorias, como proposto pela maioria das sociais democracias de sucesso no mundo; tal como apresentamos e debatemos no livro “É possível construir uma sociedade mais justa? ”. 

Os partidos políticos no país, tanto de esquerda quanto de direita, são fracos nos seus fundamentos e se mostram incapazes de lidar com a situação gerada. O governo atual, conduzido pelo direitista Piñeira, se comporta como forte repressor e bastante insensível, surpreso pelo fato das reclamações incluir não somente a população pobre, senão também representantes de outras classes sociais e de todas as idades, numa reação de caráter bastante geral contra o sistema. Ele fez duas declarações que desafiam a inteligência dos seus concidadãos e mostram o quanto se encontra totalmente perdido: a primeira dizendo que deseja saber “o que a gente pensa”, após ser duas vezes presidente do país e a segunda declarando que enfrenta uma guerra contra um “inimigo poderoso”. Uma mais ridícula que a outra.

O país andino enfrenta um enorme desafio. Tendo alcançado de um lado alguns sucessos económico-organizacionais, porem desprezando os interesses da maioria da população; como fazer agora para tentar mantê-los em bons níveis e, ao mesmo tempo, melhorar significativamente a qualidade de vida da sua sociedade? O esforço passa por um desarmamento de espíritos, aumento do sentimento de solidariedade e aproveitamento das experiências passadas. Se isso será possível é incerto.

Finalmente é apropriado fazer um comentário quanto a participação do atual ministro da Economia brasileiro neste processo. Ele também foi formado na Escola de Chicago na mesma linha dos Chicago Boys e convidado por um deles a trabalhar na Universidade de Chile em inícios dos anos 80. Com certeza gostaria de repetir agora a experiência chilena, porem num ambiente ditatorial que lhe poupasse de negociar. 

O seu alinhamento com o processo aplicado no Chile é evidente em cada uma de suas declarações, mostrando seu desprezo pelos trabalhadores e a maioria da sociedade, sua adesão as medidas neoliberais e seu alinhamento com o atual chefe. No caso das declarações degradantes que fez sobre as pessoas que trabalham na profissão de domésticas, deve-se lembrar que em 2013, ao o Congresso aprovar muito tardiamente a igualdade dos direitos trabalhistas das domésticas ao dos outros trabalhadores, o consenso foi quase total, com a posição contraria de um deputado federal, hoje atual presidente do pais.

1 Resultado

  1. Carlos disse:

    En Latinoamérica, increíblemente, la gente elogió hasta el cansancio el capitalismo Chileno, sin conocer la enorme desigualdad que este genera. En países como los nuestros (principalmente proveedores de materia prima) las leyes de mercado dentro del modelo capitalista puro siempre tenderan a acrecentar la desigualdad e inequidad dentro de los pueblos. Cuando una organización premia a un país por su facilidad de hacer negocios, como se desprende del artículo, más que un premio hay que tomarlo como una alerta.
    Siempre es importante recordar el rol de los medios de comunicación en la región, y conocer quienes son los dueños de estos medios que funcionan respaldando intereses se sectores económicos puntuales donde en su mayoría van en detrimento de los intereses del pueblo.
    Excelente artículo, Chile representa un interesante caso de estudio.

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