As lições que deixa a pandemia. Artigo de Joseph Stiglitz.

Joseph Stiglitz é um economista americano, prêmio Nobel de economia em 2001, com grande
experiência em diversos setores da economia internacional e crítico dos fundamentalistas do
neoliberalismo.
A pandemia foi originada por um vírus que muitos gostam de chamar de “democrático”,
porque não escolhe suas vítimas e podendo, ataca qualquer uma delas. Em nossa opinião, o
correto é chamá-lo de antirracista em lugar de democrático. Aprendemos que o vírus não
procura as pessoas, sendo a relação inversa, ou seja, são as pessoas que procuram o vírus. E aí
sim, independente de raça, ele se apega a qualquer uma delas.
Stiglitz começa analisando os resultados obtidos na gestão da luta contra a pandemia e
destaca que os mais prejudicados são dois perfis de países: primeiro os mais pobres e entre os
ricos, aqueles onde o cuidado com a saúde é negligenciado e de difícil acesso como aconteceu
no seu país. Ele afirma que os USA “tem um dos “standards” de saúde mais baixos das
principais economias desenvolvidas”. Em ambos casos foi notável constatar que a falta de
gestão adequada da saúde impediu a disponibilização no tempo certo de produtos simples,
como máscaras e luvas; muito pior ainda no caso daqueles mais sofisticados como
respiradores.
Quanto aos países mais pobres e nas populações de menor renda nos países ricos, o principal
problema é que a pessoa de baixa renda não tem condições de praticar o distanciamento
social, tanto na sua vida particular quanto nas atividades profissionais que lhe proporcionam
renda. Por este motivo não parece correto chamar o vírus de “democrático”.
Os problemas com a gestão da saúde em alguns países não surpreendem. Naqueles onde
predominam governos neoliberais a redução de investimentos em saúde, educação e cultura é
uma prática comum, derivada da ideologia que privilegia o mercado como ator decisivo do
destino dos investimentos. Agem dessa forma exatamente nos três pilares que podem fazer
uma sociedade evoluir mais rapidamente e com menor grau de desigualdade. Assim, três
países com esse tipo de governos, que alcançam elevados índices de desigualdade social no
mundo (USA – Índia – Brasil), devem ocupar lugares no “podium” da pior gestão da
pandemia.
O autor prognostica que a pandemia não irá terminar cedo e que “o mundo pós pandemia
poderá assistir a um aumento das desigualdades, caso os governos não façam nada a nível
internacional. ”
Acreditamos que analisando a tensa situação internacional, caraterizada por diferentes
situações conflitivas, tais como:

A luta pela liderança económica mundial entre USA e China,
O desejo da volta ao protagonismo da Rússia,

A necessidade das grandes economias de se recuperarem rapidamente da pandemia,

A instabilidade interna do mercado comum europeu,

em conjunto com o baixo nível de solidariedade internacional; dificulta esperar mudanças
radicais de atitudes, tais como as que pede Stiglitz na forma de uma reescrita integral das
regras econômicas, principalmente nos assuntos vinculados com:

Políticas monetárias centradas mais em garantir o pleno emprego e não somente na inflação,
Leis sobre falências empresariais que aumentem a responsabilidade dos bancos em casos de

empréstimos predatórios,

Aumentar a proteção dos trabalhadores e do meio ambiente, e não somente cuidar das

corporações,

Tributar melhor as pessoas, não seguindo o exemplo atual americano onde na medida em que

uma pessoa mais ganha, menos percentual de impostos paga.

Pelo menos no aspecto saúde do controle da pandemia existe esperança na prática de
solidariedade internacional, pelo fato de que nenhum país poderá controlar o vírus sozinho.
Se ele não é controlado no mundo todo de forma simultânea, ninguém estará seguro.
No que se refere à recuperação econômica pós pandemia, a situação não parece ser tão
positiva. É bem possível que a velocidade da recuperação econômica não corresponda a
diminuição rápida do desemprego gerado. A mudança de hábitos na execução de tarefas
operacionais, inclusive com aumento de custos pelas proteções e novos protocolos
necessários para desenvolver atividades profissionais; assim como o aumento do uso da
automação, um assunto transformado em altamente estratégico nas organizações,
provocará mais um avanço na transferência de atividades rotineiras para robôs, com
impacto no aumento do desemprego para profissões simples.
O cenário mais difícil será enfrentado pelos países que possuem modelos de
desenvolvimento económico de baixo valor agregado (os mais pobres), aqueles que não tem
condições de fixar preços para seus produtos e serviços, porque eles são decididos a nível
mundial em função da procura e a demanda e/ou de negociações políticas. Por este motivo,
melhorar o perfil do modelo de desenvolvimento de um país, agregando mais valor ao que
se produz é fundamental para se melhorar as margens comerciais obtidas nas relações
comerciais com o mundo.
Por outro lado, para países como o Brasi passa a ser de extrema importância o bom
relacionamento internacional. As relações econômicas são altamente afetadas por conflitos
político-econômicos, como por exemplo acontece atualmente entre USA e China, onde o
país asiático é obrigado a aumentar suas compras agrícolas nos USA em troca da
manutenção de suas exportações de manufaturados.
Além disso, regulamentações cada vez mais rígidas relacionadas ao meio ambiente,
verificação sobre a origem do dinheiro, ética nas negociações e confiabilidade nos negócios
são critérios de avaliação cada vez mais utilizados nas transações internacionais.
O ano de 2021 que se desenha atualmente, parece colocar desafios muito grandes, que nem
todos poderão vencer. Na opinião do autor, o sucesso é dependente de uma ação
internacional coordenada de ajuda aos países mais pobres. Parece pouco provável que
aconteça, o que impediria que as sequelas econômicas da pandemia se alastrem por anos.
Fonte: Artigo de J.Stiglitz publicado pela Revista Finanças & Desenvolvimento do FMI –
Fundo Monetário Internacional – Edição de Setembro 2020.

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