A valorização financeira do Professor

A valorização financeira do Professor

O combate à desigualdade e a construção de uma sociedade mais justa, passa inicialmente pela oferta de alimentação adequada nos primeiros anos de vida e de educação para todos, da forma mais igualitária possível. Se um dia isto for uma realidade, então a diferenciação entre as pessoas pela sua produtividade e contribuição com o grupo social ao qual pertencem, será fruto do seu comportamento e da agregação de valor que cada um possa oferecer. 

Não é um sonho, porque é possível encontrar essa realidade ou próximo a ela em muitos países. Neste artigo não trataremos da parte de alimentação da criança, senão da oferta de educação para ela. Nosso continente sul-americano ocupa provavelmente a penúltima posição no mundo, a frente apenas da África neste quesito.    

Qualquer que seja a pesquisa internacional que se consulte, os resultados são negativos e não se alteram com o passar do tempo.

Por exemplo, o programa PISA – Programme for International Student Assessment é uma pesquisa internacional entre alunos de aproximadamente 15 anos de idade na fase final do ensino obrigatório. É gerenciado desde o ano 2.000 pelo OCDE – Organisation for Economic Co-operation and Development, obtendo reconhecimento internacional nos seus resultados. O teste coloca os estudantes em situações reais atuais para verificar como aplicam os conhecimentos obtidos, ou seja, se trata de verificar suas reações em situações comuns na sociedade moderna. Ele foca nos conhecimentos em leitura, matemática e ciências. A versão 2018, publicada em 2019 reuniu 600.000 estudantes de 79 países, que representaram um universo de 32.000.000.  

O resumo da posição do líder da pesquisa, de alguns países da região e a média dos países da OCDE, é a seguinte:          

                                                                    PONTUAÇÃO

LEITURAMATEMÁTICACIENCIAS
Média países OCDE487489489
Estônia523523518
  34. Chile452417444
  48. Uruguay427418426
  57. Brasil413384404
  62. Argentina402379404

Todos os países da região América do Sul se classificam abaixo da média. Desde a primeira pesquisa realizada no ano 2.000, a evolução da posição alcançada pelo Brasil é a seguinte:

2.000–37; 2003–37; 2006–44; 2009–53; 2012–55; 2015–57; 2018- 57   

O resultado da pesquisa mostra os países ranqueados em sequência muito parecida ao grau de desigualdade social. Quanto maior a desigualdade, pior o nível educacional. A classificação obtida por cada país nas pesquisas, seja esta (PISA) ou outra qualquer, não tem nada de casual o fortuito. Como tratado no livro “É possível construir uma sociedade mais justa? ”, isto é consequência de um modelo de desenvolvimento económico de baixo valor agregado e de valores sociais adotados errados.

São muitos os recursos necessários para se oferecer uma educação adequada: infraestrutura, materiais, tecnologia, métodos e outros; porém quem realiza a entrega, que aqui trata de uma transferência de conhecimentos entre cérebros, é o professor. Todos os recursos podem ser ou não existentes, porém a qualidade da educação depende fundamentalmente do professor. Isto significa que ele deve ser o centro das atenções dos gestores educacionais.  

É possível analisar se o sistema educacional tem os recursos necessários disponíveis em quantidade e qualidade adequados, observando os investimentos que a ele se destinam. O Index Mundi 2012 da ONU mostra os seguintes níveis de investimentos em função do PIB para três países:


Investimentos em educação %PIB
Alemanha4,95
Argentina5,34
Brasil5,91

Os percentuais devem ser analisados com cuidado. Com a chegada da globalização, este dado é de difícil interpretação porque mesmo que Alemanha fique com o menor investimento percentual, existem três considerações a fazer:

– em tempos de globalização, os recursos tecnológicos e insumos materiais utilizados na educação tem custos similares em países diferentes; entanto que os custos com pessoal são muito diferentes. 

– o menor percentual de investimento da Alemanha, refere-se a um PIB 43% maior e apenas a um terço da população quando comparado ao Brasil. Quando comparado a Argentina, se trata de um PIB dez vezes maior e uma população o dobro que no país sul-americano. Fica claro então que o país europeu investe por aluno, bem mais que os outros dois. Entre o Brasil e Argentina os números mostram aparente equilíbrio com uma relação de 5 para 1, tanto em PIB quanto em população, a mais para o Brasil.      

– o terceiro aspecto é a qualidade do investimento, ou seja qual a forma em que os recursos são aplicados e que percentual deles realmente chega ao destino planejado, em países com altos índices de corrupção como Argentina e Brasil. 

Quando considerada a população de cada país, os investimentos por estudante em US$/ano, fornecem uma imagem bem mais real, de acordo com dados da OCDE:


Ensino ObrigatórioEnsino MédioEnsino Superior
Média países da OCDE9.4009.96815.600
Argentina3.7215.017Não disponível
Brasil3.8133.83514.023
Chile4.9315.27816.693

Estes números mostram que os países da região investem pesado na educação superior e muito menos na educação básica, desprezando o fato de que é impossível construir bem (material ou intelectual), quando a matéria prima não é de boa qualidade. Assim, eles geram profissionais de nível superior em números maiores do que o necessário e com enormes lacunas de conhecimento. 

No caso específico do Brasil, a melhoria na educação passa por um redirecionamento dos investimentos atuais, no sentido de deslocar recursos do ensino superior para os dois anteriores; aumento da qualidade dos recursos envolvidos no sistema e aumento da quantidade do investimento. Este último somente pode ser adotado com uma política de estado de longo prazo outorgando prioridade máxima ao ensino. Tal como a Coreia fez nas décadas de 70 – 90 e a China e outros estão fazendo no momento. 

Nenhuma das três tarefas é fácil de implementar, porém não se visualiza nenhum esforço real nessa direção. As mudanças que se propõem, governo após governo, ou são inviáveis de implementar ou podem ser categorizadas como cosméticas (modificação de apostilas, limitação de debates, cor da vestimenta por gênero, etc).

Focalizando no professor, figura central do sistema de ensino, se verifica que nos países educacionalmente mais avançados, o profissional é tratado de forma muito diferente. No Japão por exemplo, o professor é considerado como uma personalidade que combina autoridade com sabedoria. Em muitas situações em que se apresentam problemas complexos, tanto a sociedade como o próprio governo, apelam a figura de professores para tentar encontrar soluções. 

Os salários de professores de ensino básico e fundamental em diferentes países são mostrados na tabela seguinte (fonte: OCDE – valores em US$/ano com referência ao ano de 2018):


Inicial10 anos15 anostopo
Alemanha60.50770.67874.48679.355
Chile23.49729.31834.57744.107
Brasil*8.000Não disponívelNão disponívelNão disponível
Japão30.56043.65851.33963.562

* Ajustado para o valor do US$ atual (R$ 4,20). Não se encontram levantamentos confiáveis para professores após certo tempo de carreira, porém as diferenças com relação ao salário inicial são pequenas. Em geral o salário de professores é muito baixo e a própria profissão bastante desqualificada. 

Os gráficos seguintes mostram o desenvolvimento do salário de um professor no Japão e no Brasil, quando comparado com profissões de escolaridade similar.  A mesma evolução se comprova com muitas outras profissões. 

A comparação acima é válida para muitas outras profissões e comprova claramente a desvalorização da profissão de professor. 

Nessa situação, pode-se imaginar que a disposição do professor não será a ideal. As consequências de transmitir conhecimentos de pouco o nenhum valor, são cruamente exemplificadas no “Livro vermelho dos Pensamentos de Millór Fernandez” (pg 21):

Infelizmente o cérebro humano é um dos poucos órgãos do corpo que não têm uma válvula excretora. E as fezes culturais ficam lá, nos envenenando pelo resto da vida, transformando o mais complexo e mais nobre órgão do corpo numa imensa fossa, imunda e fedorenta. Um lamentável erro da Criação”.       

O objetivo de conseguir a diminuição da desigualdade e a inclusão social através de um aumento do nível educacional, parece ser um objetivo irreal no médio prazo. Faz parte da cultura política local não investir em projetos que somente tem retorno no médio ou longo prazo, porque eles não têm visibilidade imediata e, portanto, não geram votos.  Por outro lado, como grande parte da sociedade não tem representação nas decisões a nível de governo, nem alcançou o grau de consciência suficiente para pressionar por objetivos como este, a situação fica confortável para os governantes de turno. 

Durante muitos anos tivemos a oportunidade de lecionar em universidades, escolas técnicas e cursos livres em mais de dez países. Com relação as experiências tidas com alunos em todos eles, podemos afirmar que quando a transferência de conhecimento é feita corretamente, ou seja o conhecimento tratado é valioso e a forma de transferi-lo é dinâmica; sempre observamos enorme interesse nos participantes. Este fato confirma nossa opinião sobre o desejo de aprender, que consideramos o mais longevo de todos os desejos. Quando corretamente apresentada, qualquer situação de aprendizagem de novos conhecimentos será bem recebida por qualquer ser humano, independente da sua idade. Se não o praticamos corretamente, continuaremos a esculpir cérebros imperfeitos. 

1 Resultado

  1. Adriana Coan disse:

    E o Brasil vai cada vez mais sentir as consequências do baixo interesse pela docência. Mal remunerados, pouco valorizados, com a formação inicial deficitária o professor carrega uma educação cada vez mais pouco reflexiva e longe da construção da autonomia.
    Veja estes dados:
    De acordo com o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) de Pedagogia, 80% dos alunos cursaram o Ensino Médio em escola pública e 92% são mulheres. Além disso, metade vem de famílias cujos pais têm no máximo a 4ª série, 75% trabalham durante a faculdade e 45% declararam conhecimento praticamente nulo de inglês. E o mais alarmante: segundo estudo da consultora Paula Louzano, 30% dos futuros professores são recrutados entre os alunos com piores notas no Ensino Médio.
    Triste realidade!!! Um panorama bem desanimador.
    Cabe a nós, educadores e sociedade lutarmos pela melhoria da educação.

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