Reflexão sobre as eleições nos Estados Unidos

(No berço do materialismo, um sopro de humanismo)

A sociedade norte-americana foi construída com base em dois pilares principais: o sucesso individual e o acúmulo de bens materiais. Em consequência disso, o desenvolvimento tecnológico foi extremamente dinâmico, enquanto o social sempre foi relegado. Transformado em império no século XX, os Estados Unidos passaram a decidir e influenciar inúmeros países na forma como eles deveriam se comportar para corresponder aos seus interesses. 

No entanto, com o crescimento econômico não apresentando níveis relevantes nos últimos anos, os norte-americanos se dividem cada vez mais, ampliando a cisão entre perdedores e ganhadores. O Índice de Justiça Social 2019, recentemente publicado pela União Europeia e pela OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico), mostra os Estados Unidos na posição 36ª entre os 41 países integrantes do ranking. A posição está muito longe dos países socialmente mais justos, à frente apenas de nações como Chile, Bulgária, Romênia, Turquia e México. 

O presidente Donald Trump representa bem o indivíduo que pertence ao grupo dos ganhadores. Seu atual mandato tem mostrado claramente quais são suas prioridades, desprezando assuntos como saúde, educação e cultura, assim como questões importantes que incluem a igualdade de raças e gêneros, sustentabilidade, cooperação com os mais fracos, relações internacionais, etc. Sua condução mostra uma versão do homo sapiens relembrando suas origens na floresta, onde as leis são impostas pelos predadores.  

O fato surpreendente desta eleição é que, apesar do governo atual ter tido um bom desempenho econômico, ele foi derrotado, mesmo que por muito pouco. O resultado mostra que apesar da forte divisão da sociedade estadunidense, uma parte ligeiramente maior do que a metade repudiou o comportamento do seu presidente.       

O fato é positivo, porque além de prometer mudanças, coloca na Casa Branca uma dupla de pessoas – o novo presidente eleito Joe Biden e sua vice Kamala Harris – que tiveram experiências individuais de superação e comprometimento social. A eles foi delegada a missão interna de modernizar os objetivos do seu país e, ao mesmo tempo, se integrar ao mundo em vez de agredi-lo.    

Na América Latina jamais fomos beneficiados de alguma forma pelos Estados Unidos, caso contrário estaríamos em melhor posição da que estamos hoje. Há mais de 500 anos convivemos com as mesmas realidades de miséria e pobreza. Mesmo assim, as intervenções norte-americanas foram em sua grande parte no sentido de impor ou derrubar governantes.  Muito disso provavelmente não irá mudar. 

Contudo, é necessário aprender algo com esta experiência. Devemos resolver a situação de nossos países nós mesmos, sem esperar a ajuda de ninguém, mas confiando na liderança de pessoas que mostrem um passado comprometido com o social. Vamos torcer para que esse sopro de humanismo se converta em uma luz continua de diminuição das desigualdades sociais.  

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