Encíclica Fratelli Tutti – Parte 2

Cap. II Um estranho no caminho. 

O Papa Francisco constrói uma afirmação que, apesar de não utilizar nela especificamente o nome, trata da solidariedade, como hoje é praticada pela maioria da população:  

Assaltam uma pessoa na rua, e muitos fogem como se não tivessem visto nada. Sucede muitas vezes que pessoas atropelam alguém com o seu carro e fogem. Pensam só em evitar problemas; não importa se um ser humano morre por sua culpa. Mas estes são 

sinais dum estilo de vida generalizado, que se manifesta de várias maneiras, 

porventura mais subtis. Além disso, como estamos todos muito concentrados 

nas nossas necessidades, ver alguém que está mal incomoda-nos, 

perturba-nos, porque não queremos perder tempo por culpa dos 

problemas alheios. São sintomas duma sociedade enferma, 

pois procura construir-se de costas para o sofrimento.

É exatamente assim que as novas gerações estão sendo educadas. Para a maioria dos indivíduos solidariedade significa que em caso de alguma catástrofe, aos atingidos se deve ajudar com algum pacote de arroz, feijão ou aquela velha peça de roupa que não encontra espaço em casa, principalmente quando vale como ingresso para algum espetáculo esportivo ou musical de interesse. Como sociedade, no momento em que o triste evento acontece e em até nos próximos dias, ele é política e jornalisticamente explorado; promessas e planos de prevenção para evitar prejuízos pessoais são formulados e raramente, sob qualquer governo, executados. Assim, desde sempre é possível ouvir todo verão, que uma forte chuva provocou mortes por queda de morros ou similar. Uma sociedade solidaria é aquela na qual não existem pessoas deixadas para trás. 

É muito louvável a existência e atuação de pessoas, associações e ONG´s que realmente ajudam e prestam solidariedade aos mais necessitados. Não entanto e lamentavelmente, elas nunca irão resolver o problema principal que o conjunto da sociedade através de suas autoridades deve fazer. Elas acabam assumindo o papel de analgésicos no tratamento de uma das doenças humanas mais graves: a desigualdade social.

Trechos de autocrítica reafirmam a capacidade de liderança de Francisco:

Às vezes deixa-me triste o facto de, apesar de estar dotada de tais motivações, a Igreja ter demorado tanto tempo a condenar energicamente a escravatura e várias 

formas de violência. Hoje, com o desenvolvimento da espiritualidade e da teologia, 

não temos desculpas. Todavia, ainda há aqueles que parecem sentir-se encorajados 

ou pelo menos autorizados pela sua fé a defender várias formas de nacionalismo 

fechado e violento, atitudes xenófobas, desprezo e até maus-tratos àqueles 

que são diferentes. 

Cap. III Pensar e gerar um mundo aberto.

O capítulo é iniciado tratando a característica individual do ser humano no sentido da sua necessidade de relacionamento. Tempos atrás li uma frase do escritor e jornalista francês Gilles Lapouge, falecido em julho de 2020, que nunca esqueci: “Os dois sentimentos mais difíceis para o homem lidar na vida são a necessidade de amar e o medo da morte. Com relação ao primeiro, o Papa manifesta:

O ser humano está feito de tal maneira que não se realiza, não se desenvolve, nem pode encontrar a sua plenitude a não ser no sincero dom de si mesmo aos outros. 

Isso explica por que ninguém pode experimentar o valor de viver, 

sem rostos concretos a quem amar. Aqui está um segredo da 

existência humana autêntica, já que a vida subsiste onde há vínculo, 

comunhão, fraternidade; e é uma vida mais forte do que a morte, 

quando se constrói sobre verdadeiras relações e vínculos de 

fidelidade. Pelo contrário, não há vida quando se tem a

pretensão de pertencer apenas a si mesmo e de viver como ilhas.

Quando o Papa trata da integração de pessoas em ambientes novos e diferentes, como é o caso dos imigrantes, aparece uma afirmação forte e que deve ser refletida: 

O racismo é um vírus que muda facilmente e, em vez de desaparecer, dissimula-se, mas está sempre à espreita.

Pelo seu conteúdo, a frase aceita de forma implícita que a discriminação racial, pelo menos na visão da igreja católica, seria um problema insolúvel. Não abre nenhuma brecha de que um dia, ou após certa maturidade da humanidade, possa ser eliminada. Se a interpretação correta é essa, o sentimento quanto ao desenvolvimento humano, é certamente de tristeza. 

O individualismo, tão pregado atualmente pelas filosofias liberal e neoliberal, passa a ser tratado a seguir:

O individualismo não nos torna mais livres, mais iguais, mais irmãos. A mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Mas o individualismo radical é o vírus mais difícil de vencer. 

Ilude. Faz-nos crer que tudo se reduz a deixar à rédea solta as próprias 

ambições, como se, acumulando ambições e seguranças individuais, 

pudéssemos construir o bem comum.

Alinhado com o individualismo o Papa coloca seu posicionamento quanto a liberdade de mercado como solução para todos os problemas:

Alguns nascem em famílias com boas condições económicas, recebem boa educação, crescem bem alimentados, ou possuem por natureza notáveis capacidades. Seguramente não precisarão dum Estado ativo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, 

não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que 

nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma 

educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para 

cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade 

se reger primariamente pelos critérios da liberdade 

de mercado e da eficiência, não há lugar para 

tais pessoas, e a fraternidade não passará 

duma palavra romântica.

A liberdade é um valor básico da vida humana, porem ela deve ser relacionada a fatores reais e não subjetivos. Assim surge a pergunta: qual o valor da liberdade para alguém que não tem poses nem instrução, que sabe que nunca poderá suprir seus filhos com melhor educação, que não tem plano de saúde, que mora sem nenhuma infraestrutura, que ao menor problema da economia, fica desempregado e que ganha o salário semiescravidão (chamado de mínimo), entre outras dificuldades de vida?

No final deste capítulo o Papa Francisco lembra o posicionamento da Igreja Católica quanto aos bens criados e a propriedade privada:

Se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem se está a apropriar do que lhe é devido. São João Crisóstomo resume isso, dizendo: 

“não fazer os pobres participar dos próprios bens, é roubar e tirar-lhes a vida; 

não são nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos”. E São Gregório Magno 

di-lo assim: “Quando damos aos indigentes o que lhes é necessário, 

não oferecemos o que é nosso; limitamo-nos a restituir 

o que lhes pertence”.

Baseado neste raciocínio, a carta reafirma a propriedade privada como bem secundário e não primário, lembrando que conforme os princípios cristãos: “O princípio do uso comum dos bens criados para todos é o primeiro princípio de toda a ordem ético-social, é um direito natural, primordial e prioritário. ” 

Naturalmente que muitos leitores irão se sentir “surpresos” e “chocados” com a colocação do assunto. É notório que, ao menos teoricamente, nas questões materiais, o catolicismo e o comunismo se baseiam em raciocínios similares. Interpreto a colocação como uma forma de crítica ao consumismo exagerado que foi imposto e domina atualmente os costumes sociais. No fundo o Papa, que utiliza o mesmo par de sapatos por anos, questiona porque alguém armazena no seu guarda-roupas 30 – 40 ou mais pares de sapatos, enquanto milhares não tem o que vestir nos seus pês, além de sandálias usadas.   

Cap. IV Um coração aberto ao mundo inteiro. 

Este capítulo fecha a primeira metade da carta encíclica, pregando a apertura de pessoas e países para melhor acolher necessitados.

Os nossos esforços a favor das pessoas migrantes que chegam podem resumir-se em quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Os nacionalismos fechados 

manifestam, em última análise, esta incapacidade de gratuidade, 

a errada persuasão de que podem desenvolver-se à margem da 

ruína dos outros e que, fechando-se aos demais, estarão 

mais protegidos. O migrante é visto como um usurpador, 

que nada oferece. Assim, chega-se a pensar 

ingenuamente que os pobres são perigosos 

ou inúteis; e os poderosos, generosos 

benfeitores. Só poderá ter futuro 

uma cultura sociopolítica que inclua

 o acolhimento gratuito.

Encerra-se aqui nossa análise da primeira metade da carta encíclica, que tem como objetivo lembrar os princípios do catolicismo nos assuntos fraternidade e amizade social. Na parte 3 iremos tratar da segunda parte, na qual o Papa coloca suas próprias opiniões sobre assuntos político-econômicos e as relações internacionais.   

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *