Encíclica Fratelli Tutti – Parte 1

Em outubro 2020 o Papa Francisco publicou sua terceira encíclica sob o nome “Fratelli Tutti” (Todos Irmãos), sobre o tema da fraternidade e a amizade social. Ela contém declarações inéditas e algumas incomuns em manifestações papais, que refletem os desejos de mudança que Francisco levou para o Vaticano e tenta implementar numa das organizações mais conservadoras, rígidas e tradicionais que existem: a Igreja Católica. 

Sem conhecer-lhe pessoalmente tenho acompanhado sua gestão através da imprensa e relatos de escritores/jornalistas/conhecidos da família Bergoglio, e cultivo com bastante admiração seu desempenho na difícil função de líder. É muito raro atualmente encontrar alguém em posição de liderança no mundo político-público-institucional, que lidere com o exemplo como ele o faz. Muito pelo contrário, o normal é encontrar frequentemente em posições de liderança pessoas desqualificadas para tal tarefa, tenham sido escolhidas democraticamente ou nomeadas.

A carta encíclica tem aproximadamente 80 páginas e irei aqui comentar algumas das principais afirmações feitas pelo Papa que me parecem ser importantes e estão conectadas com o nosso objetivo de debater a desigualdade social. 

O documento trata os assuntos fraternidade e amizade social e se apoia bastante na questão da imigração e o acolhimento de imigrantes, a desigualdade social e os efeitos da pandemia. Distribuído em oito capítulos, nos dois primeiros analisa a situação atual do mundo ressaltando a tendência ao individualismo que cresce fortemente e a forma como se sentem e são tratadas as pessoas que precisam de acolhimento. Nos dois seguintes discorre de como deveria ser um cenário diferente e quais os benefícios que poderiam ser colhidos através de um incremento de fraternidade e amizade social, tanto individual como coletivamente.   

A segunda parte inicia com uma análise político-econômica, onde o sumo pontífice coloca suas ideias,  com ênfase na interferência dos poderes internacionais que muitas vezes se sobrepõem aos nacionais. Na continuação discute a melhoria do diálogo em âmbito bem amplo, no sentido de que para resolver os principais problemas que assolam o mundo não há soluções localizadas, como aprendemos com a pandemia por exemplo. Na parte final discute o uso dos conceitos da verdade e do consenso e encerra a carta analisando a contribuição das diversas religiões para aprimoramento dos assuntos tratados.  

Cap. I As sombras de um mundo fechado.     

Os desenvolvimentos tecnológicos, principalmente nas comunicações tem provocado a aproximação das pessoas, porém sem faze-las mais irmãs e com importantes consequências negativas. Conduzida pelos grandes poderes internacionais, o excesso de informação pressiona para fazer parecer que as “novidades” são o mais importante:

«Se uma pessoa vos fizer uma proposta dizendo para ignorardes a história, não aproveitardes da experiência dos mais velhos, desprezardes todo o passado olhando apenas para o futuro que essa pessoa vos oferece, não será uma forma fácil de vos atrair para a sua proposta a fim de fazerdes apenas o que ela diz? Aquela pessoa precisa de vós vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para vos fiardes apenas nas suas promessas e vos 

submeterdes aos seus planos. Assim procedem as ideologias de 

variadas cores, que destroem (ou desconstroem) 

tudo o que for diferente, podendo assim reinar 

sem oposições. Para isso, precisam de jovens que 

desprezem a história, rejeitem a riqueza espiritual e 

 humana  que se foi transmitindo através das 

gerações, ignorem tudo quanto os precedeu».

Podemos observar aqui uma crítica que facilmente pode se estender a outros assuntos importantes, como o das redes sociais terem alterado o conceito de amizade. Imagine o leitor quão diferente é o conceito de amizade que um jovem aprende nas redes sociais, comparado com o significado milenar da relação. Será que o substitui corretamente ou ficara mais fraco e esquecido no ambiente de individualismo egoísta que avança na humanidade?

Quanto a importância dos seres humanos:

Partes da humanidade parecem sacrificáveis em benefício duma seleção que favorece a um setor humano digno de viver sem limites. No fundo, «as pessoas já não são vistas 

como um valor primário a respeitar e tutelar, especialmente se são pobres 

ou deficientes, se “ainda não servem” (como os nascituros) ou 

“já não servem” (como os idosos). Tornamo-nos insensíveis 

a qualquer forma de desperdício, a começar pelo 

alimentar, que aparece entre os mais deploráveis».

Mesmo entre pessoas ativas na economia, nos países com modelos de desenvolvimento de baixo valor agregado, costuma-se remunera-las através do chamado salário mínimo, que pessoalmente acho mais adequado denomina-lo salário semiescravidão.  

Em relação a pandemia:

O mundo avançava implacavelmente para uma economia que, utilizando os progressos tecnológicos, procurava reduzir os «custos humanos»; e alguns pretendiam fazer-nos 

crer que era suficiente a liberdade de mercado para garantir tudo. Mas, 

o golpe duro e inesperado desta pandemia fora de controle 

obrigou, por força, a pensar nos seres humanos, em todos

mais do que nos benefícios de alguns.

 Naqueles países mais desiguais socialmente, nos quais a qualidade vida é mais baixa, a insegurança cresce consideravelmente. As pessoas de maior posse se fecham em condomínios, blindam seus carros e contratam pessoal para deles cuidarem. Isso não evita o temor que lhes acompanha continuamente. A pandemia atual (conforme alguns cientistas existem outros vírus e catástrofes com potencial de logo acontecer, conforme cuidamos cada vez pior da natureza), mostra claramente que a melhor segurança se alcança coletiva e no individualmente. 

Quanto as migrações, a encíclica reconhece os medos que levam ao rechaço de migrantes. Entre outras afirmações:

Tanto na propaganda dalguns regimes políticos populistas como na leitura de abordagens económico-liberais, defende-se que é preciso evitar a todo o custo a chegada de 

pessoas migrantes. Simultaneamente argumenta-se que convém limitar 

a ajuda aos países pobres, para que toquem o fundo e decidam adotar 

medidas de austeridade. Não se dão conta que, atrás destas 

afirmações abstratas difíceis de sustentar, há muitas 

vidas dilaceradas. Muitos fogem da guerra, de perseguições, 

de catástrofes naturais. Outros, com pleno direito, «andam 

à procura de oportunidades para si e para a sua família. 

Sonham com um futuro melhor, e desejam 

criar condições para que se realize».

Esta realidade leva aos países destino de imigrantes a dispensar enormes recursos para evitar as migrações e para aqueles que são aceitos, integra-los adequadamente. Creio que a melhor política seria a de propor medidas que diminuam a necessidade da migração, investindo nos países pobres de forma que as condições de vida melhorem e a procura por migração diminua. Isto porque acredito que mais de 90% dos migrantes são obrigados a fazê-lo e se pudessem, não o fariam. Digo isto por experiência própria, após ter vivido por volta de 10 anos na Alemanha e 40 no Brasil, experimentando o difícil que é se adaptar a uma sociedade diferente. 

Quanto a ilusão que causa a nova forma de comunicação:

«Os meios de comunicação digitais podem expor ao risco de dependência, isolamento e perda progressiva de contato com a realidade concreta, dificultando o desenvolvimento 

de relações interpessoais autênticas». As relações digitais, que dispensam 

da fadiga de cultivar uma amizade, têm aparência de

sociabilidade, mas não constroem verdadeiramente 

um nós; na verdade, habitualmente dissimulam 

e ampliam o mesmo individualismo que se 

manifesta na xenofobia e no desprezo 

dos frágeis. A conexão digital não basta 

para lançar pontes, não é capaz 

de unir a humanidade.

 Existe um processo mental que nenhum desenvolvimento tecnológico pode suplantar: é aquele que transforma informação em conhecimento. As conexões digitais disponibilizam quantidades enormes de informações, que muitas vezes de pouco ou nada servem na prática. É como aquele que ouviu a informação e nos diz que os vereadores na Suécia não ganham salário e quando perguntamos “então como e porque trabalham”, não sabe agregar nenhuma explicação plausível. 

O Papa formula esta forma de captação de informação da seguinte forma:

A acumulação esmagadora de informações que nos inundam, não significa maior sabedoria. A sabedoria não se fabrica com buscas impacientes na internet, 

nem é um somatório de informações cuja veracidade não está garantida. 

Desta forma, não se amadurece no encontro com a verdade. 

As conversas giram, em última análise, ao redor das 

notícias mais recentes; são meramente 

horizontais e cumulativas.     

Estes são alguns dos principais assuntos que conformam o conteúdo do primeiro capítulo da encíclica. Na parte 2 deste trabalho serão analisados os capítulos 2, 3 e 4.       

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