Brisas de primavera na Bolívia e Chile

Uma semana atrás foram realizadas eleições na Bolívia. O respeito a democracia não é historicamente uma prática respeitada nesse país, porem tudo indica que desta vez parece ser diferente. Após o golpe contra o presidente Evo Morales em 2019, quando ele tentava o quarto mandato consecutivo, um problema de apego ao poder bastante comum entre mandatários populistas como acontece atualmente na Venezuela, se instalou um governo de direita. 

O período de três mandatos de Morales foi de forte crescimento e distribuição de renda, diminuindo as desigualdades tradicionais nesse país. A economia liderada pelo presidente Arce agora eleito, que foi ministro de Morales durante todos os mandatos mostrou o acerto de sua política, o que o povo parece não ter esquecido. 

A Bolívia não é um país potencialmente pobre, como muitos pensam; as riquezas lá existentes nunca foram bem exploradas. Além de diversos minerais (quarto maior exportador de estanho), possui as maiores reservas de lítio no mundo, chamado atualmente de “ouro branco”, por ser matéria prima importantíssima para fabricação de baterias para aparelhos elétricos, inclusive os carros.

O novo presidente se diferencia dos líderes tradicionais, principalmente de esquerda, ao reconhecer seus erros, inclusive disse ter recomendado ao presidente Morales não tentar o quarto mandato consecutivo e mostra-se extremamente ponderado e educado. É uma pessoa de bom trânsito na economia mundial e de boas relações com países parceiros. Terá não entanto enormes desafios pela frente para tentar “reparar” o ano perdido pelo golpe e os efeitos da pandemia, que devolveram a pobreza milhares de cidadãos desse país que tinham saído dela nos últimos anos.

As tendências políticas que se detectam cada vez mais claras nos últimos anos, mostram que as sociedades de vários países parecem iniciar uma mudança de orientação, percebendo como os índices de desigualdade crescem quando os governos aderem a extrema direita e ao liberalismo extremo, desprezando os cuidados sociais. A sequência de mudança para governos mais comprometidos com a área social começou em 2018 com a Espanha e o México. Em 2019 se agregou a mudança na Argentina e continuou em 2020 na França com o partido verde assumindo as principais prefeituras das maiores cidades da França. Para 2021 se esperam os mesmos câmbios nas eleições no Chile e na Colômbia, onde os governos de extrema direita são atualmente bastante repudiados.

No Chile foi realizado no último domingo o plesbicito sobre a realização de uma nova constituição que sepulte definitivamente a elaborada pela ditadura de direita do general Pinochet em 1980. Ela foi elaborada sob a influência dos nefastos “Chicago Boys”, grupo de jovens chilenos da elite local, encarregados de fazer do Chile um laboratório económico americano para praticar o liberalismo em sua mais pura expressão, suprimindo em tudo o que for possível os benefícios sociais existentes. 

Assim se mostrou ao mundo a melhoria de alguns indicadores económicos e o marketing falou inclusive em “milagre económico”, que na realidade privilegiou apenas a uma pequena classe privilegiada, deixando a maioria da sociedade desamparada. Atualmente, estudar e cuidar da saúde não são serviços do estado, a aposentadoria é baixíssima e as desigualdades existentes marcantes.    

Com quase 80% dos votos a escrita de uma nova constituição no país foi aprovada, e com duas novidades inéditas importantíssimas: ela não será redigida pelos atuais representantes políticos, senão por 155 pessoas eleitas pelo voto popular. Esse grupo será formado com igualdade de género: metade serão homens e metade mulheres. 

Caso também acontecer uma mudança nas próximas eleições nos Estados Unidos, é muito provável que este processo de renovações seja acelerado. É necessário torcer para que tanto os novos governantes na Bolívia, quanto os representantes que irão escrever a nova constituição no Chile, tenham aprendido com os erros dos seus antecessores e correspondam melhor as expectativas das suas respectivas sociedades. Seria muito positivo se as brisas desta primavera se transformarem realmente em ares mais frescos para nosso continente, socialmente muito maltratado ao longo de sua história.

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